sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Um conto de fadas moderno, parte II

Chegou o dia do tão esperado encontro. O e-mail dele mostrara que ela já o havia impressionado. Mesmo assim, queria causar boa (ou melhor) impressão. Escolheu uma roupa bem bonita, maquiou-se, passou o perfume mais gostoso que tinha. Só não colocou um salto porque o rapaz era mais baixo que ela (fato, aliás, comum, com seu um metro e oitenta de altura).

Ele apareceu na hora marcada, interfonou e ela desceu. Quando o viu ainda atrás do vidro da portaria  percebeu que ele era muito diferente do estilo de caras que costumava gostar: camisa pólo, calça jeans básica e botas Bullterrier. OK, sem preconceitos. Um detalhe chamou sua atenção, ele estava com uma das mãos para trás. Pensou consigo mesma: será que é o que estou pensando? Era. Mal saiu da portaria e ele lhe entregou uma rosa vermelha com um sorriso imenso nos lábios. Ela o cumprimentou e saíram para o primeiro encontro.

Escolheram um local onde tocava um choro e servia uma comida deliciosa. Ambos estavam nervosos. Ela, mais desenvolta que el, resolveu puxar assunto. Descobriu que ele viveu muito tempo em outra cidade onde, por coincidênica, vivia boa parte de sua família. Conversaram muito sobre o estilo de vida nas duas cidades.

- E o que você gostava de fazer quando morava lá?, ela perguntou
-Ah... Eu assistia futebol, trabalhava com sistemas de computação e tomava Coca-Cola Light.

Nessa hora percebeu-se um constrangimento na mesa. Ela, sem graça, pediu licença, precisa ir ao banheiro.

Ok. Tinha decidido ser mais aberta esse ano, mas tomar Coca-Cola light?! Desde quando isso define o que uma pessoa faz da vida? Achou melhor olhar seus e-mails de trabalho no smartphone para esfriar a cabeça; Acalmou-se e voltou para a mesa.

Dessa vez foi ele quem resolveu puxar assunto. Resolveu contar para ela o que não teve tempo de contar naqueles 7 minutos do speed date. Disse que havia se separado a um ano de um relacionamento de quase 15 anos e que tinha um filho de 7 anos. Para ela, nada disso representava um problema, achava que, apesar de mais nova e sem filhos, um relacionamento poderia muito bem funcionar nessas condições. Ele, então, achou que seria legal conversar sobre seu divórcio:

- Então, aí, para ficar mais fácil com a criação de nossos filhos, eu e minha ex-mulher resolver morar na mesma quadra, em prédios um ao lado do outro.
- Ah... - ela respondeu, achando estranho.
- Pois é. Sabe? Logo que me separei, toda vez que lavava a louça começava a remoer todas as mágoas que tinha com a minha ex-mulher. Foi aí que tive a ideia de comprar uma máquina de lavar louças. Assim, meu problema se resolveria.

Pausa. Ela não sabia o que responder e, de novo, pediu licença e foi ao banheiro. Pensou: é... para que Freud, para que Jung, se todos podemos comprar uma máquina de lavar louças, não é mesmo? Não, não queria voltar para a mesa, tinha medo da próxima pérola que escutaria. Tão avessa às tecnologias e ao papel que ela tomam na nossa vida hoje em dia, deu graças a Deus pelo Blackberry e o IPhone que tinha nas mãos. Ia checar o Facebook, era o melhor que tinha a fazer.

Voltou para a mesa e disse: vamos embora? Pagaram a conta e foram. Chegando na frente de seu prédio, sentiu aquele constrangimento comum de todo primeiro encontro. Mas ela só queria ir embora. Correndo, de preferência. E foi.

A lição que tirou disso tudo: nem tudo que funciona em 7 minutos, funcionará em 14. Mas foi divertido.

* A história relatada aqui é ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência