terça-feira, 26 de abril de 2016

Das cicatrizes

Foto: https://www.flickr.com/photos/timove/


Parecia impossível encontrar o que a definia em pouco mais de uma hora. Vasculhou gavetas, livros, fotos, músicas, videos. Pesquisou lembranças, sentimentos, sensações. Olhou conversas com amigos, textos no blog, cartas, mas nada parecia ser ela ao mesmo tempo que tudo parecia ser um pouco ela.

Falavam-lhe constantemente de seu sorriso cativante e sua alegria de viver. Da sua força, da sua empatia. Falavam dos seus textos, da sua dedicação às pessoas que gostava e da sua vontade de mudar o mundo. Falavam da pinta no meio da testa, da empolgação com o carnaval, do senso de humor. Falavam de um certo magnetismo, da facilidade de envolver pessoas, do brilho nos olhos quanto fazia algo para ajudar alguém. Mas isso não podia ser ela.

Quem sabe ela não fosse esse apartamento pequeno, mas aconchegante. Os ímãs na geladeira mostrando por onde ela pisou, ou os bilhetes de quem se hospedava por ali. Talvez ela fosse suas músicas preferidas, seus filmes, seus seriados, seu quadros. Talvez ela fosse aquela estante de livros. Aquela, ali no canto, dedicada a uma só autora: mulher, feminista, militante, escritora, que misturava suas histórias com suas fantasias, seus amores com sua luta. E dizia:

'Talvez a gente esteja no mundo para procurar o amor, encontrá-lo e perdê-lo, muitas e muitas vezes. Nascemos de novo a cada amor e, a cada amor que termina, abre-se uma ferida. Estou cheia de orgulhosas cicatrizes.'


Pronto! Era isso que a definia: suas marcas, suas cicatrizes, a capacidade de sentir o mundo que havia fora e dentro dela.

Se sorria, se amava o carnaval, se envolvia as pessoas, se gostava de fazer piadinhas, era simplesmente porque cada sorriso e abraço que colhia ficava marcado dentro dela. Se queria mudar o mundo, ajudar, encontrar meios de fazer desse planeta um lugar mais leve, mais em paz, é porque cada respiração aliviada e cada olhar de gratidão que percebia tornava-se uma dessas orgulhosas cicatrizes

Não era a toa, portanto, que marcava na pele suas dores e seus amores. Preferia assim, fazer deles cicatrizes perpétuas para que, todos os dias, lembrasse do quanto era forte e quanta coisa havia vivido. Expulsava suas saudades e deixava-as expostas para que o tempo fizesse delas o que bem entendesse. Para que a vida desse a elas um destino melhor do que a prisão do seu coração.

E em tudo o que fazia, o que colhia e o que acreditava estavam as marcas do que viveu, as impressões de quem passou pela sua vida e todos os amores que sentiu. Por tudo isso, acreditava, sim, nessa grande utopia chamada felicidade.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Metalinguagem



Saudade, essa palavra que costura os meus dias e está em qualquer direção que eu olhe. E, por mais que ela insista em permanecer, continua sendo difícil de lidar.

É dolorosa em todos os casos. Deixa o vazio, a ausência, a falta. Deixa as lembranças que, por mais bonitas que sejam, jamais serão repetidas. Deixa a dor, a incompreensão, a vontade de ter feito tudo diferente um dia. Deixa a culpa também, a culpa por não ter reparado nos sinais antes, por não ter notado os pedidos de ajuda, por não ter feito o sofrimento diminuir. Mas ela também deixa um gosto doce de poder guardar as recordações intocadas e imutáveis dentro da gente.

A saudade é, no fundo, um grande exercício de perdão. De auto perdão. De perceber que, por mais dolorosa que seja uma ausência, ela não acontece por um acaso. De entender que não conseguimos mudar o destino. De saber que tudo poderia ser diferente, mas não será porque não prevemos o futuro.

Cecília Meireles dizia que "o verdadeiro amor é, paradoxalmente, uma saudade constante, sem egoísmo nenhum".  Eu diria que a vida é essa saudade constante que, muitas vezes, confundimos com mágoa, raiva e traumas. Com o tempo a gente percebe que esses sentimentos desconexos são tão pequenos diante da perda e acabam bloqueando as boas lembranças.

Separar-se de de algo que amamos é perder um pedaço da gente, mas pode ser a conquista de um novo terreno. O da leveza, da compaixão, da bondade, do amor.


segunda-feira, 11 de abril de 2016

Procurava fora o que deveria estar dentro

Foto: Elena Mitsura (https://www.flickr.com/photos/exage)



Naquele fim de tarde, ao chegar em casa, cansada de carregar todo o peso de seus fantasmas, fechou a porta com os pés, tirou os sapatos e jogou-se no sofá. Os quilos perdidos não eram apenas falta de fome, eram resultado da exaustão de arrastar tanta carga todos os dias. Chegava sempre acabada, no limite de sua energia.

Os livros estavam espalhados pela mesa da sala, o controle da TV ao seu lado, precisava preparar a comida para o dia seguinte e colocar a roupa para lavar. Mas nada, simplesmente nada a fazia ter vontade de levantar dali. Ficava presa aos seus pensamentos, devaneios e desejos secretos. Tanta coisa para resolver, mas sua cabeça continuava alimentando aquele turbilhão de dúvidas e angústias. Estava sem forças para a vida. Faltava-lhe o essencial.

Cozinhava, sorria, escrevia, fotografava, conversava e até discutia com amor. Custava-lhe, entretanto, viver o desamor. Para ela, se amar era mudar a alma de casa, a falta de amor era desabrigá-la, desalojá-la e abandoná-la ao relento. Viver atrás desse amor, como quem procura um cantinho para se esquentar, para acolher o coração, vinha sendo a missão mais dolorosa de sua vida.

Ela revolvia as lembranças, as fotos, os papéis, o passado, tentando entender o porquê de estar sempre correndo atrás de algo que não lhe pertence. São anos nesse papel, talvez tenha começado antes mesmo de nascer. Verdade é que buscava esse amor em todos os cantos da sua alma, em todas as suas relações e até na função que achava que deveria desempenhar no mundo.

Seus fantasmas a atormentavam insistentemente. Provocavam, cutucavam a ferida mal curada, novamente exposta, ardendo. Ela não encontrava mais o remédio no mundo. O coração pulsava a duras penas tentando manter alguma vida ali dentro.


quarta-feira, 6 de abril de 2016

nada




Era tanto. Era ombro, peito, risada. Era casa cheia, vida, cozinha habitada. Era música, energia, sorrisos. Era dança. Era cor, palavras, chamegos.

Agora um nada.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Lágrimas




Perdi as contas de quantas vezes repeti: não sei mais chorar. E você insistia: bobagem, você sente tudo por todo mundo. E sentia, sem derramar uma lágrima.

Mas naquela manhã eu chorei: de tristeza, de dor, de raiva. Chorei quando te vi pela primeira vez imóvel, dormindo, e quando percebi que não poderia dar meu último abraço. Chorei quando te pedi para não ter medo, mesmo eu estando em pânico, e te disse que estou aqui, aconteça o que acontecer. Chorei quando sonhei contigo e entendi que você queria me pedir para ficar bem e não chorar. Chorei quando te vi pálido. Chorei quando toquei pela última vez no seu rosto e percebi que não ouviria mais sua voz. Chorei. E não existe um só dia desde então que eu não chore, em lágrimas ou em palavras.

Durante a sua breve passagem pelos meus dias, você me deixou sorrisos e muito carinho. Escreveu histórias, arrancou risadas e me presenteou com uma caixa de boas lembranças. Você me devolveu a capacidade de perdoar até o que eu achava ser imperdoável, a capacidade de sentir e a vontade de ajudar. Você me fez entender que meus sonhos podem estar acima das angústias e das desilusões. Você colocou muito mais cor nos meus dias.

Há um ano todo aquele amor que eu sentia eternizou-se dentro do meu peito com a lembrança do seu sorriso. Obrigada, por tudo!