segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Que venha 2015!

Foi um ano de sensações, sem dúvida. Dúvidas, separações, inseguranças. Autoconhecimento. Fechamento para balanço. Paixões, experiências, sorrisos. Sorrisos. Sorrisos.

Foi um ano de grandes momentos e pequenas viagens. Copa, eleições. Rio, São Paulo, BH, Belém, Macapá. Nenhum grande evento, mas eventos memoráveis.

Um ano de pessoas, indo e vindo. De encontros, desencontros e reencontros. De surpresas, algumas boas, outras nem tanto. De cultivo, cuidado. Um ano de olhar pra dentro, pra onde nunca que se quer olhar e ver o que não se quer ver. De avaliar e reavaliar. De se arrepender e se arriscar. Um ano de descobertas.

Descobri que é possível perdoar até o imperdoável. Se apaixonar pelo oposto. Ter paz no conflito. Amar o detestável. Compreender o incompreensível. E, de novo, perdoar de coração, sem querer nada em troca.

Não corri, mas dancei. Não fiquei mais paciente, mas fiz novos e bons amigos. Senti um monte de saudade e abri meu coração. Li pouco, escrevi muito. Ri menos do que queria, tomei menos sol do que gostaria mas, olha só, já consigo me equilibrar no skate!

Chego ao fim de 2014 de alma lavada, faxina feita dentro do coração, pulmão cheio de ares renovados, membros livres, músculos tonificados de esperança, ossos leves de paz.
2015, te espero de braços e peito aberto.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Estamos todas mortas

Sabia que todas as vezes que você diz que lugar de mulher é na cozinha, você me mata por dentro?
Quando você assobia na rua, me chama de gostosa e de princesa, você me mata por dentro.

Nas vezes que você grita comigo em casa, levanta a mão, ameaça me empurrar, você me mata por dentro.

Quando você me exibe feito um troféu para seus amigos, mas me humilha dentro de casa, você me mata por dentro.

Aquelas vezes que você insinuou que meus amigos são meus amantes e que eu já passei na mão de toda a cidade, você me matou por dentro.

Quando você aplaude quem diz que mulher precisa se vestir corretamente, não pode falar palavrão, deve sentar de pernas fechadas, você me mata por dentro.

Todas as vezes que você diz para os amigos que não gosta de mulher rodada e que mulher tem que se dar ao respeito, você me mata por dentro.

As suas risadas quando o médico disse que você deveria comprar uma arma para cuidar da filha que vai nascer, ou quando seu sogro falou que mulher se cria na rédea curta, me mataram por dentro.

Aquelas suas insinuações de que mulheres são inimigas entre si, são rivais, me mataram por dentro.

Seu sarcasmo diante de uma mulher com mais poder e dinheiro do que você me matam por dentro.

O dia que você saiu de casa porque eu disse que o corpo é meu e faço dele o que eu quiser, me matou por dentro.

A sua postagem no Facebook dizendo que mulher que não se comporta merece ser estuprada também me matou por dentro.

Quando você me chama de feminazi e mal amada, me mata por dentro.

Aquele dia que você disse que sou exigente por estar solteira e egoísta por não querer ter filhos, você me matou por dentro.

Por sua causa, estou morta por dentro. Sua mãe, suas irmãs, suas tias e suas amigas também.

Algumas estão fisicamente mortas porque você não percebe que suas atitudes, suas piadas, seu comportamento alimentam uma cultura opressora e assassina.

O amor é injusto



A verdade, meu amigo, é que todo mundo sofre por amor.

A executiva elegante e poderosa, que todos os dias mata sete leões na corporação e sai ilesa, corre para o banheiro vez ou outra para chorar pelo amor perdido.O professor universitário, tão inteligente e seguro, encharca as provas não corrigidas por conta de um amor não vivido. A feminista convicta que diz aos quatro ventos que não quer casar, sofre por ver sua família imaginária destruída por uma desilusão. E até o solteirão que foge de qualquer relacionamento cai de amores pela única mulher na terra que não dá a mínima para os seus encantos.

O amor é ardiloso, meu amigo, e muito injusto. Poucos saem ilesos as suas artimanhas.

domingo, 14 de dezembro de 2014

desejos


Se eu pudesse escolher
Pediria que você
Chegasse
Quisesse
Virasse
Brincasse
Me desse
Sorrisse
Chorasse
Beijasse
Trouxesse
Ficasse
Me amasse.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Minha estrada




Não sei bem quanto tempo andei até chegar aqui. Foram caminhos difíceis, incertos, tortuosos. Por vezes me perdi. Não sabia qual direção tomar, escolhi a errada. Quando percebi era tarde demais. Tive que dar muitos passos para trás até acertar a estrada.

Mas continuo tropeçando. Tropeço nas mesmas expectativas, nós mesmos medos, nas mesmas angústias. Tropeço na insegurança, na impaciência. Tropeço até no ego. Tropeço nas feridas que, vira e mexe, abrem-se novamente. Tropeço no meu orgulho e nas minhas decepções.

Percorri grande parte do caminho acompanhada. Às vezes percebo que me escorei para conseguir caminhar. Confesso, foi doloroso aprender a andar só. É sempre difícil estar só. Escutar o eco de nossa própria voz, de nossos próprios pensamentos. Percorrer labirintos que ignoramos por tanto tempo, acessar o poço mais profundo dos nossos sentimentos. Só.

No entanto, o ser humano se acostuma com tudo, inclusive com a solidão. Aprende a fazer dela uma companheira de viagem, uma parceira. Aprende a tirar dela os melhores conselhos e as piores tentações. Aprende a conviver em paz e a sentir falta dela. Até perceber que a solidão também vicia.

Estou parada aqui, olhando para os lados. Nem sinal de vida. Não me lembro mais como é caminhar de mãos dadas, descansar abraçada, conversar pelo caminho. A minha estrada é deserta. Vez ou outra esbarro em algum andarilho, todos muito ocupados com suas andanças para me dar atenção. De repente, alguém ensaia mudar de rumo, me acompanhar. Ou sou eu que quero acreditar nisso quando, na verdade, o que querem mesmo é uma breve companhia para aliviar a solidão. No fim, eu continuo caminhando só.

Se eu sofro? Não sei dizer. A solidão virou mais que uma companheira, virou um lema. Cada adeus que precsio dar aperta no peito, mas passa logo. Só as lembranças ficam. Dor mesmo, nem sei mais se sou capaz de sentir. Amor tão pouco. Tudo me parece um pouco igual: sem cor, sem esperança, sem gosto.

Tenho, pelo menos, meu caminho a seguir. Não sei onde vou chegar e se um dia vou chegar. Mas enquanto eu tiver estrada para caminhar, prefiro fazer de cabeça erguida. Mesmo que minhas mãos só alcancem minha solidão.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Sobre paixões


Onde nasce uma paixão? Nos risos soltos, nos olhos brilhantes ou nas borboletas no estômago? Na vontade de ver sempre, de se falar toda hora ou de ficar perdida nos abraços? Nas conversas sem fim, nos pedidos de aconchego ou nas horas que voam quando estamos juntos? Na saudade repentina, na falta matutina ou na vontade de abraçar bem forte, feito menina? No velho, no novo ou no momento exato em que nosso coração diz: ninguém me faz tão bem quanto você.




quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Encantador de sorrisos



Encantador de sorrisos. Essa deveria ser uma profissão regulamentada em lei.

s.m. 1. Aquele que arranca risadas tímidas, sorrisos largos e gargalhadas barulhentas durante todo o tempo que está perto de você.

O encantador de sorrisos profissional sorri com os olhos, com o corpo, com as mãos. Sorri até quando não sorri, quando o assunto é sério.

Ele enche os dias de alegria e de leveza. De uma vontade incontrolável de estar junto sempre: no almoço, no cinema, nas noites frias de edredom e seriado, no café da manhã às duas horas da tarde.

Pode ser mal entendido, às vezes, pela magia seu poder hipnotizante e seu poder de cura. Mas tem um coração tão grande que transborda. O maior perigo que oferece é encher nosso estômago de borboletas e elas não quererem mais sair de lá.


terça-feira, 14 de outubro de 2014

Exposta



Não deixava muito espaço para pensar em sua vida. De dia mergulhada no trabalho, de noite em seus livros, seriados e projetos pessoais. Até lavar a louça era motivo para ocupar a cabeça com o CD da recém lançada banda do ex-vocalista da sua ex banda favorita.

Parar para pensar a obrigaria a admitir seu apego, sua fraqueza, sua entrega. Preferia fugir com sua máscara de mulher forte e independente. Pensar era admitir seus medos e reconhecer que sua vida amorosa era um ciclo de abandonos e expectativas frustradas. Era admitir que dentro dessa armadura que ela decidiu vestir havia uma ferida exposta e incurável.


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Amor é abandono




Amor é abandono, viu escrito no muro. Ou imaginou que viu. Ou aquelas palavras estavam impregnadas no seu inconsciente e resolveram dar o ar da graça. Não importa. O fato é que a frase fazia um sentido muito maior do que ela gostaria.

Amor é abandono. E desde sempre tem sido assim. Dos amores familiares aos amores românticos, ou ela abandonava ou era abandonada. O pai, a avó, a mãe, a melhor amiga, o primeiro namorado, o último namorado, a última paixão. Estava sempre em situações potenciais de abandono. O abandono físico ou o abandono emocional.

Era nesse padrão que depositava suas expectativas. Mais do que querer quem não a queria, ficava atrás de quem não tem disposição física, emocional ou espiritual para acompanhá-la. De pessoas egoísta e mesquinhas a espíritos inquietos que, depois de conquistá-la, iriam atrás de seus sonhos deixando seu coração cheio de saudades. Ou pessoas que simplesmente não a aceitavam seu jeito de ser e era ela que decidia abandonar. 

Amor é abandono, ela repetia. Todos os dias. Na tentativa de se encontrar naquelas três palavras. É, mas não deveria ser. É, mas ela não queria que fosse. Amar não deveria ser a arte do encontro? Abandono é desencontro. 

Amar é desencontro. E ela não se encontrava nisso. Por vezes, sentia-se incapaz de amar. Duvidava de seu passado e de suas histórias. Minimizava seu sentimentos, seus investimentos, sua dedicação. Acreditava mesmo que não haveria encontro possível dali para frente.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Ninguém vive de contar histórias...





- O que você quer ser quando crescer?


- Contadora de histórias, respondi.


- Mas ninguém vive de contar histórias.


- Não, eu vivo para contar histórias.


Conto histórias nos meus textos, nas minhas fotos, na minhas tatuagens.
Conto histórias nos quadros da minha parede, nas almofadas do meu sofá.
Conto histórias enquanto tomo banho, enquanto cozinho, na lista de compras.

Conto as histórias que habitam meus sonhos.

Eu conto histórias quando falo e quando calo.
Conto histórias no meu trabalho e nos cartões que escrevo para os amigos.
Conto muitas histórias nos presentes e carinhos que ofereço, 
nas risadas e abraços que dou.
Conto histórias enquanto sonho, enquanto caminho e enquanto sigo minha vida.

Conto as histórias que apertam meu coração.

Conto histórias reais, fictícias,virtuais e físicas.
Eu conto as histórias que vejo e as histórias que sinto.

Conto as histórias que não saem da minha cabeça, desesperadas para baterem perna pelo mundo.

Eu conto histórias da minha vida. Mesmo quando é uma vida inventada.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Mais um adeus



Eu gosto do jeito que você sorri e da sua capacidade de tornar qualquer história cotidiana um motivo para gargalhadas. Gosto da sua leveza e da sua coragem de se jogar no mundo atrás da felicidade.
 
Eu gosto do seu colo, do seu carinho, do seu abraço, da sua risada. Gosto da sua a sinceridade, da sua doçura e desse jeito estabanado que nos contamina quando estamos perto.

Eu gosto do jeito que você mexe no cabelo, da maneira como você sorri facilmente e de ver seus olhos brilharem sempre antes de uma nova aventura. Gosto do jeito que você segura a caneca com as duas mãos quando bebe o leite com Toddy antes de dormir, das nossas crises de riso de madrugada, da sua facilidade em sair sempre linda de casa.

Eu gosto das nossas fotos, das nossas viagens, das nossas lembranças. Gosto das nossas histórias e de saber o que você quer me dizer só no olhar.

Gosto de te ter por perto, mesmo que distante. De saber que você está a um toque de telefone e que seu colo sempre terá espaço pra mim. Mas eu também gosto de te ter longe e saber que você está atrás dos seus sonhos. 
 
Eu gosto de te ver feliz, de sentir sua voz animada e seu coração agitado. Gosto de ver essa paixão pelo novo que você carrega aí dentro. 

Eu definitivamente não gosto de te dizer adeus, essa é a parte mais difícil. Nem dessa dificuldade toda que sinto em colocar o que eu levo no peito pra fora. Não gosto de te ver ir com essa sensação de que a volta não será tão em breve, mesmo sabendo que uma hora isso aconteceria. Não gosto de olhar para esse abismo aberto entre nós e ter medo de que ele não feche mais. 

Eu gosto de poder olhar nos seus olhos e dizer: eu te amo. Amo esse amor sincero e insistente que só irmãos de alma podem ter.



segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Tempo

Fazem exatamente dois anos, dois anos que ela pisou naquelas terras pela primeira vez para viver a história dele. Parecia uma eternidade. Sua vida já estivera de ponta cabeça, ela já havia perdido e encontrado o rumo tantas vezes. O que acreditava ser o início de uma vida, era o começo do fim.

A praça, o museu, as comidas, o sotaque, por aquelas bandas, as marcas dele eram inevitáveis. As lembranças seriam sempre dos dois. O que havia passado mesmo era a dor. Consegui até enxergar um sorriso quando ela entendeu a nostalgia que ele sentia por sua terra natal.

Quando o celular apitou, avisando que hoje completava dois anos, ela poderia ter chorado, esbravejado. Mas deu um sorriso tímido com o canto da boca, respirou fundo e repetiu: que bom. Seu coração estava em paz por ter conseguido guardar com carinho as melhores lembranças.

domingo, 7 de setembro de 2014

Preciso de você



Hoje foi difícil segurar as lágrimas. Senti seu abraço, seu cheiro, seus beijos. Senti aquelas cócegas no pescoço quando você o beijava ou falava bem baixinho no meu ouvido. Senti suas mãos na minha cintura, seu calor no meu corpo.

Hoje te quis ao meu lado mais do que qualquer outra pessoa. Quis escutar sua voz, segurar sua mão. Quis seu sorriso, seu colo, sua alegria. Quis essa presença que me deixa tão em paz.

Hoje eu quis que o rosto que estava ao meu lado quando acordei fosse o seu. E que o beijo de bom dia viesse da sua boca. Quis ter perdido a hora simplesmente por não conseguir sair daquele nosso emaranhado de pernas, braços e vontades.

Hoje eu quis que aqueles braços fossem seus, que o colo fosse seu, os carinhos fossem seus. Quis que a presença fosse sua e as palavras saíssem da sua boca.

Hoje eu queria que essas lágrimas fossem simplesmente de saudade e não de tristeza.


segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Heartbreaker


Com os olhos inchados ele perguntava:
- Por que nós dois? Por que com a gente?

Não sei o que o fez pensar que eu teria essas respostas. 
Eu também não entendia: 
Não estava tudo bem a um segundo atrás? 

Não, não estava. 
Nós queríamos muito que estivesse, mas não estava. 
Ele estava lá, estava sempre lá, 
quando eu quisesse, quando eu precisasse. 
Já eu aparecia apenas quando me era conveniente.
Eu não sabia andar de mãos dadas, 
dar beijo em público, 
dormir de conchinha. 
Ele queria anunciar para o mundo: estamos juntos. 

Eu não queria saber da família dele, 
dos problemas dele, 
muito menos das angústias dele. 
Ele queria uma narração detalhada dos meus dias, 
das minhas ansiedades, 
dos meus sonhos. 

Eu não queria juntar minha vida em outra. 
Ele queria fundir nossas vidas, 
dividir os dias, 
repartir um futuro. 

Não, não estava tudo bem. 
Sente minhas mãos, estão frias. 
Sente meu corpo, gelado. 
Coloca sua mão aqui no meu peito, está oco. 
Não tem como estar tudo bem.



quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A-pesar




Era uma dessas lindas histórias de amor, mas sem um final feliz. Eles se completavam, se entendiam, se conectavam. Era felizes 24 horas por dia, sete dias por semana. Gostavam das mesmas festas, das mesmas músicas, dos mesmos filmes. Concordavam em tudo, desde a decoração da casa, até a conjuntura macroeconômica da Europa pós-crise. Um belo dia um dos armários amanheceu vazio. No lugar das roupas, um bilhete de despedida.

Assim que terminei de ler o relato, agradeci por esse final nada feliz. Menos por não acreditar em finais felizes e mais por duvidar de qualquer relação perfeita.

Podemos gostar das mesmas músicas, mas eu vou continuar brigando para escutar Hanson no lugar daquela banda de metal que só você conhece. Podemos dançar no mesmo passo, mas teremos que revezar entre o meu bolero e o seu forró. Podemos ter o senso de humor parecido, mas você vai continuar não entendendo minhas ironias e eu me irritando com as suas piadas sem graça. Podemos gostar dos mesmos programas, mas vamos ter que negociar entre ir pra balada gay, sentar num bar pra beber um chopp ou simplesmente ficar em casa vendo filme. Você pode gostar de cozinhar e eu só de comer, mas às vezes você não vai querer cozinhar e eu vou ter que dar o braço a torcer, mesmo depois de um dia cansativo. Ou podemos simplesmente não concordar em nada.

Provavelmente nossas vidas seguirão algum desses roteiros. Algumas vezes faremos essas concessões de bom grado, outras depois de quase decretar a terceira guerra mundial. Algumas vezes cederemos com sorriso no rosto, outras com um bico para Pato Donald nenhum botar defeito. Podemos não nos importar, muitas vezes, mas outras tantas vamos chorar, esbravejar, bater o pé.

No fim de tudo o que importa é o tamanho do amor. E amor a gente não escolhe, a gente sente.

sábado, 23 de agosto de 2014

Deixa pra mais tarde

- Você nunca se apaixonou por mim, ele disse.

Era o tipo de afirmação que fazia parte do seu charme, mas cansava com o passar do tempo. Essa mistura de falsa modéstia com vontade de impressionar o levava a falar sobre coisas que não sentia realmente. Ela não lhe dava mais crédito, havia se iludido demais com suas frases de efeito. Olhou para o lado, levantou-se da cama e muou de assunto. Enquanto caminhava para a cozinha pensou no que gostaria de ter respondido:

- Você sabe muito bem que me apaixonei. Paixões, no entanto, são fogo: aquecem, confortam, queimam, machucam e basta uma ventania para levá-las embora. Você soprou forte demais.

Não respondeu. Assim como não falou sobre o incômodo de nunca sentí-lo entregue a ela quando estavam em público, como acontecia entre quatro paredes. Estava sempre só, com a sensação de precisar pedir carinho e atenção. E há tempo havia desistido de lidar com quem tinha dificuldade para ser espontâneo em seu afeto. 

Também guardou para si a falta que sentia daquela paixão, daquele frio na barriga toda vez que escutava sua voz, daquela falta de ar que tinha quando o abraçava forte. Uma saudade paradoxal do sentimento que deveria ser mútuo, mas havia vivido sozinha, e mesmo assim a fez muito bem.

Respirou fundo, bebeu um grande gole d'água e voltou para a cama com o copo cheio, a garganta entalada e o coração vazio.

O sol entrava pela janela, batia na persiana e desenhava listras de luz por todo o quarto. Os dois comentavam como sempre era tão gostoso aquele emaranhado de pernas e braços, a respiração sincronizada e o calor dos corpos juntos. O dia estava lá fora, sol quente e céu azul, e eles se recusavam a levantar: só mais cinco minutinhos. Ele fazia questão de dizer como as listras ficavam bonitas no corpo dela. Ela sorria, sentia-se realmente bonita com ele. Os cinco minutos viravam uma hora. Ao menos ali, naquele ninho, nada havia mudado. 

Mas o verão ainda estava lá fora.



quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Eu sou vadia

Muita gente vai torcer o nariz quando ler esse título. Essas mesmas pessoas não estranhariam se eu fosse homem e fizesse um texto chamado "Sim, eu sou pegador". No máximo levariam na brincadeira. Elas também acreditam fielmente que não existe machismo e que o feminismo é uma grande bobagem, mas adoram afirmar que a mulher deve ser "uma santa na sociedade e uma puta na cama".

Eu não me declaro feminista pelo simples fato de ter muitas amigas feministas realmente engajadas, que estudam e vão para a rua lutar pelos nossos direitos. Elas sim são feministas, estão colocando a cara a tapa para um bem que atingirá todas nós. Mas posso me incluir na categoria de altamente simpatizante com as lutas e questões feministas.

E, por isso, me contorço com o tanto de bobagem que escuto por aí. "Sou contra machismo e feminismo, defendo o igualitarismo", escutei esses dias. A afirmação já chega tomando como certo que o feminismo quer que as mulheres tenham mais direitos que os homens. O que nós queremos é receber o mesmo salário que os homens quando exercermos os mesmos cargos; andar na rua de shorts curtos com a mesmo liberdade que os homens andam sem camisa; ser presidentes, Prêmio Nobel, Oscar, tetracampeãs mundiais em qualquer esporte, e não só a garota bumbum ou a Miss Brasil; ter o direito sobre o nosso corpo, escolher se vamos ou não levar uma gravidez adiante, como queremos nosso parto, com quem nos deitamos ou deixamos de nos deitar.

Nós também queremos que os homens tenham direito de fraquejar sem julgamentos. Que eles possam escolher cuidar da casa e dos filhos se quiserem. Que não se sintam na obrigação de serem os provedores da família e ganharem mais do que suas mulheres. Que eles possam brochar, chorar, expor suas fraquezas. Que não sejam obrigados a perder a virgindade com 12 anos em algum prostíbulo. Que não tenham que provar sua masculinidade indo pra cama cada dia com uma mulher diferente, ou arrumando briga na rua ou, até mesmo, batendo em suas companheiras, mães ou irmãs. E se isso não é brigar por igualdade de gênero, não sei o que seria.

A questão principal está na grande diferença entre o machismo e o feminismo: enquanto o primeiro oprime, o segundo liberta. Só que muitas pessoas ainda ignoram isso. Outro dia fiz um post no Facebook reclamando do quanto é horrível escutar cantadas todas as vezes que resolvo deixar meu carro em casa e andar a pé. Eu sabia que teria apoio e comentários positivos da maior parte das mulheres da minha rede, mas não esperava ter que lidar com comentários masculinos do tipo: "quem mandou ser bonita?". Isso não é um elogio, é só uma comprovação de que o machismo está grudado na nossa cultura a ponto de alguns não perceberem que esse comportamento só reforça a minha reclamação. A forma como essas cantadas geralmente são proferidas é quase sempre lasciva, assustadora e extremamente opressora. E nós sabemos muito bem como é horrível sentir um frio na espinha, abaixar a cabeça e aumentar o passo para sair o mais rápido possível dali.


Mas ainda há aqueles que usam o argumento de que isso faz parte da natureza masculina e a mulher deve se preservar. Não, isso não faz parte da natureza masculina. Isso é construído na nossa sociedade: conforme os meninos crescem, vão sendo ensinados a não controlar seus instintos, a mexer com as mulheres na rua, a achar que têm direito sobre o corpo da mulher. E nós ficamos vulneráveis, a mercê desse comportamento ameaçador.

Quando falamos de questões feministas, precisamos ter em mente as marcas históricas que nós, mulheres, sofremos: assédio sexual, moral, psicológico; abusos, estupros e outros tipos de violência; restrições, proibições e julgamentos; falta de direitos e de liberdade. A meu ver, é simplesmente impossível ignorar tudo, desvalorizar o feminismo e fingir que não vivemos em uma sociedade extremamente machista.

A idade média acabou, está na hora de parar de achar que feministas são bruxas, comem criancinhas, querem destruir os homens. Queremos um mundo igualitário para homens e mulheres. Que possamos ser santas na sociedade e putas na cama. Ou putas na sociedade e santas na cama. Que possamos ser vadias, mães de família, executivas de sucesso, donas de casa, solteiras, casadas, enroladas, lésbicas, bissexuais, transexuais, heterossexuais, brancas, negras, amarelas, gordas, magras, altas, baixas, vaidosas, desleixadas ou qualquer coisas que quisermos ser, na hora que acharmos melhor. É a nossa vida, são os nossos direitos.

Para quem quiser saber um pouco mais e não correr o risco de sair falando bobagens por aí, indico dois links:

Feminismo para homens, um curso rápido.
FAQ Feminista.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Aos meus 30 anos

Os 30 anos estão aí, batendo na minha porta. Fico pensando quando era criança e achava que seria muito velha com essa idade, muito responsável, que minha vida estaria resolvida. Nada disso. Nem perto disso, aliás.

Não plantei uma árvore, não tive um filho, nem escrevi um livro. Muito menos ganhei meu primeiro milhão antes dos 30. Também não casei, não encontrei o amor da minha vida ou a minha alma gêmea e até aprendi que eles não existem. Não tenho uma carreira de sucesso, não fiz o mestrado que sempre quis e nem viajei o tanto que desejava. Não fiz nada para mudar o mundo, nem para mudar minha vizinhança, não tenho investimentos, nem um pé de meia para o futuro.

Não virei escritora, nem paquita, nem promotora, nem repórter de guerra, nem atriz, como eu queria. Não virei dentista ou advogada como a minha mãe queria. Também não passei em nenhum concurso público que me pagasse bem e me acomodasse até a minha aposentadoria. Fui trabalhar com uma coisa que nem consigo explicar para o meu avô, que ninguém conhece direito, mas todo mundo acha que sabe muito e que é algo muito fácil de se fazer. Não é, acreditem.

Nesse momento de reflexão que antecede qualquer aniversário, pelo menos os meus, cheguei a me sentir mal por não estar me lamentando por esse meu fracasso aparente. Mas não estou. Definitivamente, não correspondi a nenhuma expectativa dos meus pais, família, amigos e nem mesmo as minhas. Falhei em uma porção de coisas e várias vezes. E me sinto incrivelmente bem por isso.

O que essas três décadas me trouxeram não foi uma vida de revista, de propaganda de margarina. Foi, sobretudo, uma paz interior enorme. Foi maturidade, autoestima, calma e sabedoria suficientes para entender que tudo na vida tem seu tempo e o meu tempo nunca será igual ao de outras pessoas.

Sinto-me aliviada quando penso que desde a minha adolescência não passo por um momento tão bom como este. Com muitas dúvidas, mas sem angústias. Com muitos sonhos, mas sem desespero. Muito mais dona de mim, sabendo o que eu quero, o que eu gosto. Tendo consciência e responsabilidade sobre todas as minhas ações. Sem preocupações desnecessárias com o que os outros pensam de mim. Entendendo que meu corpo não é o mais o de 15 anos atrás, mas que eu o conheço bem melhor e me sinto muito mais bonita e segura do que naquela época. Tendo muita clareza do que eu sou capaz e confiança no que eu faço, tanto na vida pessoal, quanto na profissional.

Ainda quero fazer o meu mestrado, morar fora, ter filhos, encontrar alguém que me faça feliz (para sempre ou por uns dias, tanto faz), viajar bastante, ser reconhecida como profissional. Ainda quero fazer diferença no mundo, ou na vida de algumas pessoas, ou de uma pessoa só, ajudar a reverter um cenário ruim, como eu desejo desde pequena. No entanto, hoje eu tenho planos, não angústias. Aprendi que tenho vontade, capacidade e coragem para fazer tudo isso, ou simplesmente para mudar de vida a hora que eu quiser.

"São fortes as mulheres de 30. E não têm pressa pra nada. Sabem aonde vão chegar. E sempre chegam." 

(A mulher de 30, Mário Prata)

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Todas as declarações de amor são ridículas



Lembra-se de chegar na sala de aula, ainda criança, e ter um ursinho com uma mensagem de amor em sua carteira. Ou do amiguinho que pedia para os pais ligarem para sua mãe levá-la para brincarem juntos, e ele não conseguia nem falar direito quando ela chegava.

Os bilhetinhos na escola viraram cartas, poemas, flores, quadros, canções, viagens. Difícil pensar em alguma declaração de amor que não havia recebido. Em tempos de internet, nem e-mails haviam escapado. E ainda se surpreendia ao receber mensagens de pessoas que pouco ou nada a conheciam e nutriam uma admiração por ela que nem a própria entendia. Guardava tudo com muito carinho e uma certa desconfiança.

Declarações de amor pouco ou nada significavam para a garota. Diga o nome de sua banda preferida, ou a cor que mais gosta. Cite três filmes que emocionaram, ou três músicas que a fazem arrepiar. Acerte seu prato favorito, ou a leve para uma viagem inesquecível. Ria de seu sarcasmo e a faça rir com bobagens. Entenda o tanto que ela pode ser sensível e um pouco bruta. Veja como ela gosta de cuidar e ser cuidada. Coloque-a no colo, nos braços ou a jogue na cama. Mas não envie flores antes de enxergar tudo isso. Ela odeia rosas vermelhas. Ela detesta poesia rimada.

Tudo isso a enche de tédio. Ela quer aventura, prazer, movimento. Ou simplesmente alguém que a enxergue.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

E o meu coração se deixou levar

Ela queria me contar o quanto o destino pode ser cruel nesses assuntos do coração, uma tentativa sem sucesso de me proteger das decepções. Apesar de tão pouca idade naquela época, eu já havia percebido.

Meu amor, dizia, não deixe que seu coração seja feito de bobo.

O problema é que eu nasci com a teimosia das mulheres da família, com essa síndrome da persistência, essa dificuldade de me dar por vencida. Não desisto antes de ter certeza que fiz tudo o que poderia. Acabo, eu mesma, enganando meu coração.

Apesar dos seus conselhos, eu me deixei levar. E me deixarei levar todas as vezes que fizerem meus olhos brilharem. Sou mesmo feita de amores, lágrimas e cicatrizes. 

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Mas ele foi...


"Fica mais um pouco, não deixe que tudo isso acabe". Ela dizia com os olhos.

Ele a abraçava como se fosse o último abraço de suas vidas, e foi. Ela chorava como se fossem suas últimas lágrimas, e foi. "Você é a mulher da minha vida, eu mereço sofrer pelo que fiz". Ela queria dizer que não, não merece. Merecem ficar juntos como sempre foi. Merecem seguir os planos que traçaram dias antes e, de repente, sumiram como névoa. Desejava que ele não fosse. Mas ele foi.

Não sem olhar para trás. Não sem voltar e prometer que ficariam juntos. Não sem jurar mais algumas vezes que era o amor da sua vida. Enquanto isso, ela estava sem vida, sem alma. As lágrimas escorriam já por costume, sem nenhuma expressão. 

Ficou ali, paralisada por horas, dias, meses, tendo que lidar mais uma vez com o abandono.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Despedidas

Fico aqui, nessa sala de embarque observando.
Ele me acena de longe, ameaça ir embora, 
mas hesita e volta.
Me chama, eu levanto,
ele se vira, precisa ir.
Sento novamente, olho com os olhos marejados,
como é estranho perder quem nunca foi nosso de verdade.

Ela também vai, vai para o lugar que lhe pertence,
vai atrás dos sonhos.
Ela vai, de verdade,
e nós perdemos tanto tempo com bobagens.
Fecho os olhos e tento imaginar como será daqui para frente.
Como lidar com a ausência?
Como não ter mais o colo quando eu precisar,
a risada quando eu quiser.
Com quem eu vou comer a panela de brigadeiro,
ou rir de coisa boba por uma tarde inteira sem cansar?

Ele resolveu brilhar
mas longe, bem longe daqui.
Quer ganhar o mundo, conquistar pessoas.
Viver.
E vai levar embora todo o encanto,
todo esse bem estar que nos toma por completo.
Vai levar as brincadeiras, as piadas,
a animação que contagia.
A única coisa que vai deixar é saudade.

Ela quer amor. E vai atrás de amor.
Vai levar um pedacinho desse amor com ela,
um pedacinho que ainda nem existe, mas já dá saudade,
já pesa no coração,
já faz a gente juntar as economias pra ir também.
Vai levar as melhores lembranças da infância,
o parentesco fake que não poderia ser mais verdadeiro.

E eu continuo aqui, sentada nessa sala de embarque
tentando decidir o que vou fazer com esse coração tão espalhado
mundo afora.





terça-feira, 29 de julho de 2014

Tudo o que eu quero

É, eu achava que não queria,
eu achava que não conseguia,
eu achava que nem existia.

Mas aí eu quis.
Quis viver, quis sentir.
Aceitei o sorriso, o carinho,
aceitei as semelhanças e as diferenças.
Aceitei aquelas borboletas que me faziam faltam,
e aquela sensação gostosa e inexplicável.

Depois de tudo, você me pergunta o que eu quero:
quero aquela preguiça na cama no dia seguinte,
me esconder do frio debaixo da manta
e enroscar minhas pernas nas suas.
Quero fazer cafuné até você dormir
e acordar sem conseguir me mexer com seu abraço apertado.
Quero posar para as tuas fotos,
e rir de qualquer uma das suas piadas sem graça.
Quero achar lindo você odiar pimenta
tanto quanto eu odeio,
e amar carnaval
tanto quanto eu amo.

Mas eu também quero o que você não consegue me dar
Uma mensagem de bom dia
e uma ligação de boa noite.
Um convite para o cinema.
Aquela festa com todos os seus amigos,
ou a balada com todos os meus amigos.
A vontade de ficar mais uns minutos, mais umas horas,
mais uns dias, ou uns meses.
Um trilha sonora.
Jantar miojo a luz de velas.
Ou apenas ouvir você dizer
"Como eu gosto de você".


segunda-feira, 28 de julho de 2014

2014

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.



Carlos Drummond de Andrade





domingo, 27 de julho de 2014

Infinita

Ainda que o tempo passe
E que amores surjam.
Ainda que a vida cuide
E a felicidade venha
Essa saudade nunca tem fim.
Nunca haverá colo igual, sorriso igual, amor igual.
É a minha saudade infinita.
O maior e melhor amor do mundo.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Descoberta

Era de dor que eu falava. Lembra?
De saudade, de revolta, de angústia,
era de coração partido, de tristeza.
Daquelas lembranças que queimavam aqui dentro
e das lágrimas que não paravam, não paravam nunca.
Era de passado. Um passado nada, nada generoso.
E o medo bateu na minha porta, lembra?
Eu queria correr (ainda quero, às vezes),
eu queria escorregar (ainda quero, às vezes),
eu queria fugir (será que você me encontraria?).
Tentei a todo custo descobrir se ainda existia algum sinal de vida aqui dentro do peito.
Nada, nada, nada. Só um eco. Um vazio. Sem fim.
Era de lata, de pedra. Não batia.
Medo. Desde aquele chá. Vontade de sumir.
Mas você insistiu, lembra?
Não, não lembra, porque foram seus olhos que insistiram e nem te contaram: 
Fica, não vai, eles disseram.
E eu fiquei,
mas pensei em correr incontáveis vezes.
Tracei até um plano de fuga.
Fica, não vai.
Eu fiquei, mesmo repetindo para mim mesma: você vai se machucar.
Acho até que escrevi isso na minha mesa de trabalho para lembrar todos os dias.
Mas eu fiquei.
Fiquei com esse beijo novo, com esse corpo novo.
Fiquei com esse cheiro novo, essa pele nova.
Com nossos abraços. Pode ser nosso?
Nossas risadas, nossa viagem, nossas conversas, nossos momentos.
Eu não sei o que é isso,
não lembro mais como é ser "nosso" e não "meu".
Mas sei que isso tudo é nosso, seja lá o que for.
Não sei para onde vamos e se vamos.
Só sei que se eu for, não quero ir só,
quero levar esse sorriso, quero levar esse bem estar.
Quero acordar como hoje e dormir como ontem.
E quando (se) chegar ao fim vou poder dizer que fui (sou) muito feliz. 
Vou poder dizer que agora eu sei finalmente o que é gostar com leveza.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Aos amigos

Dizer que eu amo é muito pouco para quem está do meu lado, não importa o que aconteça.
Lembrar da importância na minha vida não expressa o tanto que sou grata pelos momentos juntos.
Pelas risadas, pelas broncas, pelas lágrimas, pelos sorrisos, pelos abraços, pela saudade, pela distância, pela convivência, pelas palavras, pelas baladas, pelos lanches, almoços, jantares... é por tudo isso que digo que os verdadeiros amores da minha vida são meus amigos.
Aos antigos eu agradeço por me aguentarem por tanto tempo. Aos novos eu agradeço por gostarem apesar dos defeitos. A todos eu agradeço pelo carinho e atenção que recebo todos os dias da minha vida.
Vocês fazem a minha vida parecer muito mais fácil.

domingo, 20 de julho de 2014

Diálogo

- Me ajuda a sentir saudade, contribua com a minha vontade de voltar...
- E como eu faço isso?
- Não suma. E me lembre das coisas boas que tenho aí. 
- Nunca vou te deixar esquecer que você deixou aqui um sorriso bobo, uma saudade apertada e um coração  feliz.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

terça-feira, 15 de julho de 2014

Belém,a cidade que surpreende

Metade mineira, metade amapaense, passei a vida escutando as pessoas fazerem brincadeirinhas com o Norte do país, sem conhecer nada sobre a região. Eu mesma conheço muito pouco.
No último final de semana visitei Belém e me encantei. Fiz questão de registrar minhas melhores impressões no Blog do Ministério do Turismo.
Confiram. O post e a cidade. <3

Basílica Nossa Senhora de Nazaré
Foto: Erick Moreno

Casas e azulejos
Foto: Erick Moreno

Estação das Docas
Foto: Erick Moreno

Mangal das Garças
Foto: Erick Moreno

Mercado Ver-o-Peso
Foto: Erick Moreno

Teatro da Paz
Foto: Erick Moreno

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Encontro

Lembro que no dia que me despedi, o sol brilhava como hoje. E o céu era de um azul tão intenso que parecia de mentira, o clima estava agradável e aquilo nem parecia um cemitério.

Passaram-se mais de seis anos até que eu tivesse coragem de fazer essa visita. O céu estava, novamente, dando seu show. O dia estava, novamente, lindo. E eu caminhei entre aquelas árvores como quem caminha em um parque, como se eu fosse encontrá-la sentada em um banco qualquer.

Parecia que eu já havia estado lá tantas vezes, cada passo que eu dava era uma fotografia na minha memória. Não tive dificuldades para achá-la. Talvez ela tenha guiado meus passos.

E ali passei alguns minutos, sentada na grama, olhando para a última lembrança que eu tinha de uma vida inteira de boas recordações. Eu, que a tanto tempo não rezo, comecei a contar meus últimos seis anos e tudo o que eu queria que ela tivesse presenciado. Eu, que nem sei mais em que acredito, pedi sua proteção, sua ajuda, seu cuidado.

Voltei por aquele longo caminho com o coração leve como há anos não sentia. E com aquela vontade enorme no meu coração de ser feliz, pois era disso que ela se orgulhava.



domingo, 13 de julho de 2014

Coragem

E, talvez, uma das coisas mais difíceis da vida seja dizer não ao nosso coração.

Coragem.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Não, meu amigo.

Não, meu amigo, esquece, ela não quer esse tipo de amor. Esse amor dependente, devoto. Não.

Ela quer ser admirada, não idolatrada. Ela quer alguém que caminhe ao seu lado, não alguém que só corra atrás.

Não, ela não quer, de jeito nenhum, que você mude seus sonhos por ela. Não quer que você viva a vida dela. Nem que você concorde o tempo inteiro ou faça todas as suas vontades. Ela não quer esse olhar de quem não enxerga quem ela realmente é, com um monte de defeitos. Nem alguém que a ache infalível.

Ela não quer ser responsável pela sua felicidade, pelo seu sucesso, pelas suas boas lembranças. Ela não quer dividir nada com você, quer alguém que some na vida dela. Não quer esse mar de rosas, essa vida colorida que você promete. Quer um oceano de águas agitadas, com marolas e ondas altas, com calmarias e tempestades. Quer uma vida com cores, mas com cenas em preto e branco também.

Ela quer alguém que faça rir acima de tudo. Que seja companheiro, mas que a conteste e a contrarie quando for preciso. Quer alguém que dê colo, mas dê bronca também. Que a deixe com saudade, de verdade, e depois mate essa saudade da maneira mais intensa possível. 

Alguém que a ame e a desafie. E que tope fazer da vida a dois uma aventura.



terça-feira, 8 de julho de 2014

Ainda está tendo Copa!

É, gente, o Brasil perdeu. O hexa não veio, mais uma vez. E eu, que tanto não quis Copa, me rendi ao espetáculo. Religião? Não, se tem uma verdade nesse país é dizer que "o futebol é o ópio do povo", durante noventa minutos

Resisti até o último segundo. Não falei antes, não comprei ingresso, nem camisa eu tinha. Não durei um dia de Copa. Primeiro jogo estava eu lá, torcendo, sofrendo, querendo entrar em campo. Não consigo, a minha nação, a minha bandeira falam mais alto.

E aí, nossa seleção, que entrou desacreditada (como quase sempre), foi muito mais longe do que esperávamos. Foi muito, muito sofrido. Teve empate, pênalti, gol anulado, gol contra, teve Neymar fora. Acabou em goleada histórica. E eu chorei. Chorei por quem estava grudado na TV, acreditando que mesmo com toda dificuldade ganharíamos. Chorei por aquele velhinho que circulou no Facebook segurando a taça, chorei pelo David Luiz que queria dar uma alegria para os brasileiros. Chorei pelo Júlio César que fez tão lindamente no jogo contra o Chile, chorei pelo Neymar que não pode realizar seu sonho. Chorei por aquele monte de gente que estava agarrado na camisa, no camarotes do estádios ou no interior das regiões mais pobres. Chorei pelas crianças da propaganda da Sadia e as crianças do Brasil. Chorei como eu choro com todos os problemas que temos, como eu choro ao ver crianças na rua, mulheres sendo espancadas, homossexuais sendo assassinados. Chorei como eu choro ao ver pessoas morrendo em corredores de hospitais públicos, ou de fome e de sede no sertão. Chorei pelas cores do meu país, pela minha bandeira, pelo nosso orgulho. Chorei pelo meu amor a esse país.

Mas eu também dei muita gargalhada, porque a Copa virou a Copa dos memes. Porque, enquanto meu coração estava apertadinho de tristeza pela seleção, meu celular não parava de apitar com milhões de imagens e vídeos engraçados sobre a nossa derrota. E aí, mais uma vez, foi uma gargalhada de orgulho, pela nossa capacidade de não nos deixar abater, de pegar os limões e fazer um deliciosa caipirinha.

Para o Brasil, acabou, mas a Copa ainda está aí. Como bons brasileiros ainda nos resta aquela secada saudável na Argentina, tri no Maracanã não dá. Ainda nos resta terminar a Copa do mesmo jeitinho que ela começou, sendo a Copa das Copas. Não porque a FIFA quer, mas porque nós fizemos isso.

E quando a Copa acabar, vai deixar uma saudade imensa no nosso coração. O Brasil não levou, mas nós, brasileiros, levamos, por tanta alegria e receptividade. Bem que a gente queria estatizar a FIFA, fazer Copa todo ano no Brasil, com turno e returno. Não dá.


Nós prometemos manifestações durante o torneio. E demos sorrisos, abraços, amizade, festa e alegria. Mas os problemas continuam onde sempre estiveram. Os aeroportos estão reformados e os estádios de pé, mas os hospitais e as escolas continuam precários. O transporte público continua não funcionando, a segurança então, nem se fala. Nossos políticos ainda são corruptos, nossa desigualdade ainda é das maiores do mundo. Nós ainda continuamos subornando policiais e furando filas. Ainda falsificamos carteirinha de estudante. Ainda trocamos votos por favores. Nosso país ainda é racista, homofóbico e machista. E, pior, nós, que sempre fomos acusados de passividade política e falta de engajamento, nem podemos mais ir às ruas exigir nossos direitos. Não, ao menos, sem ter que correr da polícia ou respirar gás lacrimogêneo. Viramos vândalos, criminosos, vagabundos.

Apesar de tudo, sabe o que essa Copa mostrou para mim? Que somos patriotas sim, somos muito patriotas. Somos patriotas com ou sem Copa. Nós fizemos a Copa mais linda da história, mas estivemos dispostos a abrir mão dela pelo país. A um ano atrás essa paixão que nos fez chorar diante da TV hoje, estava nos gritos de protesto que pediam transporte público mais barato, saúde, educação e exigia nosso direito de protestar. Isso é ser brasileiro. É essa paixão, essa vontade de mudar, de fazer diferente.

Não foi a Dilma, não foi o PT, não foi o Aécio, nem o Fred, nem o Zuñiga, muito menos o Felipão culpados pela nossa derrota. Aconteceu, não funcionou e isso é esporte. Não existem mocinhos e bandidos e precisamos parar com essa mania de procurar os heróis e o vilões. Precisamos parar misturar futebol e política, a Copa não vai decidir as eleições.

Faltam quase 80 dias ainda. Temos um monte de candidatos para analisar e debates para assistir. Amanhã a dor dessa derrota passa, mas vamos enfrentar uma batalha muito maior: decidir o futuro do nosso país. A minha sugestão é esquecer se você é azul ou vermelho, pegar a camisa verde e amarela e toda essa paixão pela nossa bandeira e amarrar nessa decisão. Vamos pegar esse nosso entusiasmo e esse orgulho de cantar "sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor" e colocar no nosso direito de exigir nossos direitos. Toda essa boa vontade que tivemos para receber os estrangeiros, vamos usá-la para cobrar nossos governantes, para escolher bem os que entrarão.

Vamos, vamos mostrar para o mundo que somos Brasil dentro e fora do campo!

À seleção, obrigada pela luta, pelo choro, pela humanidade. Obrigada pelas demonstrações de afeto e pela simpatia. Não estamos tristes com vocês, estamos tristes JUNTO com vocês.

E peço licença pelo merchandising, mas nossa publicidade na Copa também ganhou:








domingo, 6 de julho de 2014

Every single day

Amo. Não um amor qualquer, desses que encontramos em qualquer esquina. Amo um amor único, verdadeiro.

Amo um amor desses que aguenta a distância, seja ela física ou não. Aguenta os chuviscos e as tempestades, só não aguento a indiferença.

Amo um amor que dá saudade, every single day, do abraço, da palavra, do sorriso. Um amor conformado, de quem pouco ou nada mais pode fazer, mas sente falta dezenas de vezes por dia.

Amo esse amor assim, inquieto, sofrido, que só quer estar junto. Em todos os momentos. 

sábado, 5 de julho de 2014

Assim que é bom

O que me encanta é gente bonita, mais por dentro que por fora. Gente que tem o coração grande e, mesmo que falte espaço, arruma um jeito de fazer caber quem precisa. Gente que ajuda até quando não pode, que abre os braços cansados, que perde noites de sono e ainda amanhece com um sorriso.

Gosto de quem fala olhando no olho, de quem tem atitude e assume o que sente. Gosto de gente que se expressa com o olhar e se declara com um toque. De gente que me faz ter ataques de riso e topa até programa de índio.

Me apaixono por sorrisos sinceros e abraços calorosos. Gosto de quem sabe dançar ou dança mesmo sem saber. De quem atravessa a cidade por um beijo, de quem faz chá quente.

Gosto, mas gosto mesmo de quem quer estar junto, mesmo que a distância.


sexta-feira, 4 de julho de 2014

Escolhas

Aquela hora que temos certeza que nossas escolhas nos farão sofrer. Por ter ficado quando não deveria e ter deixado ir embora o que deveria ficar.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Tudo bem

Tudo bem se nada deu certo, se chegou até o fim é porque deu.
Tudo bem se você tiver que dar dois passos para trás, você já sabe como é lá na frente e viu que é melhor mudar de caminho.
Tudo bem se a sua vida parece jogada no modo shuffle, já, já ela acerta e aí quem vai querer reprodução aleatória é você. 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Eu recomendei

E já que falei tão bem de Brasília, fui convidada pelo Gastronomix para dar dicas de lugares legais para comer na cidade. Olha aqui! =)



segunda-feira, 30 de junho de 2014

Pretérito, perfeito.

Lendo textos antigos, nunca imaginei que conjugar amor no passado seria um alívio tão grande.

sábado, 28 de junho de 2014

Um decreto

Institua-se um decreto onde a desonestidade seja proibida. Onde a mentira e a falta de respeito sejam punidos. Institua-se um decreto onde seja proibido partir um coração, sob pena de sofrer o mesmo, em proporções maiores. Institua-se um decreto onde seja crime dizer o que não sente, prometer o que não pode cumprir. Onde a preocupação com o sentimento do outro seja obrigatória. Por favor, institua-se um decreto onde as pessoas sejam obrigadas à sinceridade. Onde não se minta só para obter vantagens.

Institua-se um decreto onde seja proibido, terminantemente proibido brincar com os sentimentos alheios. Onde o papo furado seja censurado e as mentiras, castigadas. Um decreto que nos salve e nos preserve de tanto desamor e tanta desilusão.

Seu lugar de adeus

Aquele era seu canto, o que escolheu para deixar seus pensamentos correrem. Carregado de lembranças, é verdade. Foi o local do seu último adeus e onde tantas vezes misturou suas lágrimas com aquelas águas. Era também o lugar onde conseguia encontrar o ar que lhe dava coragem para enfrentar seus fantasmas. Sexta-feira a noite, deveria estar bebendo com os amigos ou dançando o forró que foi tão insistentemente convidada. Mas precisou fugir, mesmo sentindo um frio de doer a espinha.

O que a levava para lá, nem ela sabia direito. Saudade, raiva, tristeza? Angústia. Angústia é um pouco disso tudo. Era aquela angústia que de tempos em tempos batia no peito. Não queria esperar, mas esperava. Não queria duvidar, mas duvidada. Não queria desconfiar, mas desconfiava. Queria mesmo era a sorte de um amor tranquilo com sabor de fruta mordida. Como era possível se seu coração há muito não tinha essa tranquilidade? Tinha só uma porção de feridas abertas que insistiam em não cicatrizar.

Andava feliz ultimamente, descobriu que seu coração não era lá tão de pedra assim. No entanto, lutava todos os dias contra outros inimigos que tiravam seu sono, sua paz e suas certezas. Lutava contra seus traumas e aquele medo paralisante de passar por tudo de novo. Não seria capaz de aguentar.

E na imensidão daquelas águas artificiais, fixava seu olhar e deixava seus pensamentos irem embora. Há meses resiste, mas está prestes a desistir e ir embora sem deixar rastros novamente. É mais uma batalha perdida contra seus fantasmas.





quarta-feira, 25 de junho de 2014

David Waldstein também ama Brasília

Obrigada a todos que compartilharam meu texto, comentaram, opinaram. A Repercussão foi muito maior do que imaginei. Só queria demostrar o quanto essa cidade é importante para os que vivem aqui!
Algumas pessoas compartilharam com o jornalista do NYT pelo Twitter. Ele responde e, quem diria, também diz amar a cidade <3

Melhor resposta ever ;)


Thanks to everyone who shared my text, commented, opined. The commotion was much larger than I imagined. I just wanted to demonstrate how this city is important for those who live here!
Some people shared on Twitter with the journalist from the NYT. He answered that he also loves the city <3

Best answer ever;)



Dele

Eu sou capaz de ficar do seu lado sem te beijar.
Eu sou capaz de dormir uma noite inteira com você, só te observando.
Eu só não sou capaz de ficar sem te ver.


terça-feira, 24 de junho de 2014

Don´t feel bad because I live in Brasilia. Really.

Patrick Gough, an urban transport planner from San Francisco, said in an article for the NYT that he felt bad for those who live in Brasília, because we´re isolated from each other.

Patrick, I didn´t need to read past the second line to understand that you didn’t leave the Hotel Sector/Monumental Axis circuit before writing. You didn´t even come close do the “satellite cities”, a kind of neighborhood here. But as we're talking about Brasilia, not the Federal District, I will only write about Brasília.

Don’t feel bad because I live in Brasilia, really. Maybe you're right in being shocked by our lousy public transportation and our need to ride cars. But we are not isolated.

I live in a city that, by limited mobility, encouraged me since childhood to spend so much time with my friends that I became part of their families. I remember weekends and even holidays at my friends´ houses, calling their parents “aunt” and “uncle”, spending time with cousins, brothers and friends. This experience gave me many brothers and sisters, ones that aren´t blood-related, but are in my heart.

I live in a city that has no beaches, but we’re proud of our artificial lake. We take our towels, surfboards, kayaks, paddleboats and fill the water every weekend.

I live in a city that has a lot of samba. But it also has forró. It has frevo, maracatu, axé, funk, rock, pop, jazz. Oh! It has a free Orchestra, a world renowned music school, a choro club. There are tons of other good people, struggling to build a strong musical culture in the city. And thanks to this diversity, I have never needed much effort to meet the most diverse Brazilian rhythms.

I live in a city that has no prejudice against people from Ceará, as they do in Rio de Janeiro, or of people from Paraíba, like in São Paulo. This is a matter of pride. The accents mingle here, to the point of not having a distinct accent or having all of them together. I can say "oxi", "uai" and "véi" (common slang from different regions of Brazil) in the same sentence and no one will find it strange. It is completely natural for me to proudly have a mother from Minas Gerais and a father from Amapáand simply be "a typical child from Brasilia."

I live in a city that allows me to have best friends that are rockers, hipsters, catholics, evangelicals, gay, straight, and they live comfortably amongst themselves, go to the same places one time or another and are much more open to diversity.

I live in a city that has a horrible subway and I can’t even take the bus. But there's a lot of people trying to change that: people who help us to know which bus to catch, people advocating the bicycle as a means of transport (after all, the city is fantastic for this). It also has miles of bike paths that may not have been constructed in the best possible way to turn them into a means of transport (yet), but at least they are crowded on weekends.

I live in a city that everyone moves around inside their boxes, also known as cars, but packed the largest urban park in the world all weekend. Packed the clubs and the lakeshore as well. And there are free events in open places like Picnik, Deguste, Quitutes, samba in neighborhoods, shows on the streets, which are always crowded. It also has galleries and museums. It has a Zoo and small parks. And these places are always full. Is this isolation?

I live in a city with blue skies, green grass during the rainy season and red in the drought, which has the coloured flowers of “ipês”: purple, white and yellow. It has white monuments. It has artwork of Athos Bulcão in the street and the artwork of Niemeyer, it has masterpieces of nature in every corner and around the city. And we don’t get tired of going out just to take pictures or nearly fall off the skateboard to register an “ipê” blooming.

I live in a city that allows me to get to a stunning waterfall in half an hour. Or spend the weekend in a small and charming city. Or feel the atmosphere of a "real city", 20 minutes north or south.

I live in a town that has no security, education, or public health. Still, and despite all the bad governors we've had, it's better than most cities in Brazil.

I live in a city that allows me to go home for lunch if I want, or with friends in the middle of the week. That allows me to leave work and have dance lesson, snack and still catch a movie. That allows me to have four social events in one day and go to all of them.

I live in a city that has struggled to build an identity, as we’re still very young. We have a generation eager for culture, leisure and amusement. With very good people making art and valuing people struggling to make it in the art business.

I live in a town where I can eat “açaí”, “tacacá”, “maniçoba”, “tapioca”, barbecue, “baião de dois”, “pamonha”, “carne de sol”, “feijoada”, “pastel”, and food from anywhere in the country like I’m in their regions of origin. Also, I can count on my fingers other cities that have a large number of restaurants and cafes with such quality. Here, I can eat Indian, Thai, healthy, Italian, Japanese, Contemporary, French and various other food without missing the restaurants of big cities.

I live in a city without corners, but with a lot of beer. Because each neighborhood has at least a bar or a pub that is always full. It also has lots of “caipirinha”, “caipisakê”, “caipiroska”, wine and sparkling wine.

I live in a city that doesn’t have football, it also has no tradition in the sport, encouragement, nor investment. But it has basketball, swimming, and street races. It has a population that loves to do sports and not do they go to the gym, they exercise by the lake , in the streets with their bikes and at the parks.

So don’t feel bad for me, because I love this city with all of its problems (and there are many), but especially for all of its qualities. And I'm extremely proud of my generation who strives every day to reduce the city’s bureaucracy and to make it a place increasingly irresistible.

Não se sinta mal por eu morar em Brasília. Não mesmo.

Patrick Gough, planejador de transporte urbano de San Francisco, disse em uma reportagem para o NYT que se sentia mal por quem vive em Brasília, porque estamos isolados uns dos outros.

Patrick, não precisei passar da segunda linha para entender que você não saiu do circuito Setor Hoteleiro/Eixo Monumental antes de escrever. Das cidades satélites você não sentiu nem o cheiro. Mas já que estamos falando de Brasília e não de DF, é de Brasília que vou falar.

Não se sinta mal por eu viver em Brasília, não mesmo. Talvez você tenha razão em se espantar com o nosso péssimo transporte público e a nossa necessidade de andar de carro. Mas não estamos isolados.

Eu moro em uma cidade que, pela dificuldade de locomoção, me estimulou a, desde pequena, conviver tão intensamente com meus amigos a ponto de fazer parte da família. Eram finais de semana e até férias de revezamento entre as casas, chamando os pais de tio e tia, convivendo com primos, irmãos e amigos e isso me fez adotar uma série de "irmãos" que podem não ser de sangue, mas são de coração.

Eu moro em uma cidade que não tem mar, mas tem um orgulho imenso do lago artificial. Fazemos questão de pegar as cangas, pranchas, caiaques, pedalinhos e lotar aquelas águas todo final de semana.

Eu moro em uma cidade que tem muito, muito samba. Mas também tem forró pra caramba. Tem frevo, tem maracatu, tem sertanejo, axé, funk, rock, pop, jazz. Ah! Também tem orquestra de graça, escola de música reconhecida mundialmente, clube do choro. Tem um montão de gente boa demais, batalhando para construir uma cultura musical forte na cidade. E graças a essa diversidade, eu nunca precisei fazer muito esforço para conhecer os mais diversos ritmos brasileiros.

Eu moro em uma cidade que não é ofensa ser cearense, como é no Rio, ou "paraíba", como é em São paulo. É motivo de orgulho. Os sotaques se misturam aqui, a ponto de não termos sotaques, ou termos todos juntos. A ponto de eu poder falar "oxi", "uai" e "véi" na mesma frase, e ninguém achar estranho. A ponto de ser perfeitamente normal eu ser filha de uma mineira do interior com um amapaense, morrer de orgulho por isso e ser simplesmente "a cara de Brasília".

Eu moro em uma cidade que me permite ter melhores amigos roqueiros, axezeiros, forrozeiros, católicos, evangélicos, homossexuais, heteros, e eles convivem bem, frequentam os mesmos lugares vez ou outra e têm a cabeça muito mais aberta para a diversidade.

Eu moro em uma cidade que tem um metrô horrível e eu nem sei pegar ônibus. Mas tem um monte de gente tentando mudar isso: gente que ajuda a gente a saber qual ônibus pegar, gente que defende a bicicleta como meio de transporte (afinal a cidade é fantástica para isso). Tem também quilômetros de ciclovia que podem não ter sido construídos da melhor forma possível para transformá-las em um meio de transporte viável (ainda), mas estão lotadas ao menos nos finais de semana.

Eu moro em uma cidade que todo mundo anda dentro de suas caixinhas conhecidas como carros, mas lotamos o maior parque urbano do mundo, todo santo final de semana. Lotamos os clubes também. Lotamos a orla. E tem Picnik, tem Deguste, tem Quitutes, samba na superquadra, shows na rua, todos lotados. Tem CCBB. Tem Parque Olhos D'água. Tem Água Mineral, tem Zoológico. Fora as piscinas dos amigos, nas casas ou nos prédios. E estão sempre cheios. Isso é isolamento?

Eu moro em uma cidade que tem céu azul, tem grama verde na chuva e chão vermelho na seca, que tem ipê roxo, branco, amarelo. Que tem flores coloridas. Tem monumentos brancos. Tem obra de arte do Athos Bulcão na rua, tem obra de arte do Niemeyer no centro, tem obra de arte da natureza em todo canto e no entorno da cidade. E a gente não se cansa de sair na rua só pra fotografar, ou quase cair do skate para registrar um ipê florescendo.

Eu moro em uma cidade que me permite chegar em uma cachoeira deslumbrante em meia hora. Ou passar o final de semana em uma cidadezinha de interior bem charmosa. Ou sentir o clima de "uma cidade de verdade" a 20 minutos ao sul ou ao norte, é só ir para Taguatinga, Sobradinho ou outras cidades satélites.

Eu moro em uma cidade que não tem segurança, educação, nem saúde pública. Ainda assim, e apesar de todos os péssimos governadores que tivemos, é melhor do que a maioria das cidades do país.

Eu moro em uma cidade que me permite almoçar em casa se eu quiser, ou com os amigos em pleno meio da semana. Que me permite sair do trabalho e fazer aula de dança, lanchar e ainda pegar um cinema. Que me permite ter quatro eventos sociais em um dia e conseguir ir a todos eles.

Eu moro em uma cidade que vem lutando para construir um identidade, afinal somos muito jovens ainda. Que tem uma geração ávida por cultura, lazer e diversão. Que tem gente muito boa fazendo arte e gente lutando para que a arte seja valorizada.

Eu moro em uma cidade onde eu posso comer açaí, tacacá, maniçoba, tapioca, churrasco, baião de dois, pamonha, carne de sol, feijoada, pastel, e comida de qualquer lugar do país como se eu tivesse em suas regiões de origem. Além disso, conto nos dedos alguma outra que tenha um número tão grande de restaurantes e cafés com tanta qualidade. Aqui eu posso comer comida indiana, tailandesa, natural, italiana, japonesa, contemporânea, francesa e várias outras sem sentir falta dos restaurantes de grandes metrópoles.

Eu moro em uma cidade sem esquinas sim, mas sem cerveja nunca. Porque cada superquadra tem ao menos um bar ou um boteco que estão sempre cheios. Tem também muita caipirinha, caipisakê, caipiroska, vinho, espumante.

Eu moro em uma cidade que não tem futebol, também não tem nenhuma tradição no esporte, nem incentivo, nem investimento. Mas tem basquete, tem natação, tem corrida. tem uma população que faz questão de praticar atividade física e não frequenta só academia. Frequenta o lago (olha ele de novo), frequenta as ruas com suas bicicletas, o eixão aos domingos, o parque da cidade.

Então não me venha dizer que se sente mal por mim, porque eu amo essa cidade com todos os problemas que ela apresenta (e não são poucos), mas sobretudo por todas as suas qualidades. E eu tenho um orgulho imenso da minha geração que se esforça a cada dia para desburocratizar essa cidade e fazer dela um lugar cada vez mais irresistível.