sábado, 14 de janeiro de 2012

Aos 90 anos...

As primeiras lembranças que me vêm à memória são as de um senhor alto e magro, a quem todos me diziam ser o vovô. Eu me lembro de olhar para ele e pensar com meus botões: mas o vovô não deveria ser um velhinho barrigudo?!

Vovô, eu e vovó
É, esse vovô não parecia nada com os vovôs e vovós das histórias, das novelas e dos filmes. Ele não passava o dia sentado na cadeira, lendo jornal e fazendo tricô. Também não era careca, barrigudinho e cheio de rugas. Ele trabalhava, e trabalhava muito. Era altivo, elegante, sério e todo cheio de si. Ah! E me contaram que era português (coisa, que aliás, descobri há poucos anos que não era). Nas poucas recordações que tenho dele chegando do trabalho, com aquela pasta de executivo, seu cabelo impecavelmente penteado e a roupa engomada, imaginava que ele era o homem mais importante do mundo. Enchia a boca para falar para meus amiguinhos da escola: meu avô trabalha, e é português!

Tinha também o vovô dos finais de semana. O vovô que colocava no colo, contava piada, histórias engraçadas e imitava o Galeão Cumbica, da Escolhinha do Professor Raimundo, com direito a penteado para entrar no personagem. Me levava para o rio e me dava uma daquelas peneiras grandes para procurar ouro entre as pedras, e eu realmente acreditava que iria encontrar.

Ah! Tem ainda o vovô português. Sim, ele nasceu no Brasil, mas tem toda a pinta de europeu. Quando voltou de suas últimas viagens a Portugal era difícil entender o que ele falava, voltou mais português do que Camões. E não foi só isso. Dizem que ele ainda arrasou no francês quando foi contar para o delegado em Paris que havia sido assaltado no Louvre. O detalhe é que ninguém sabia que ele falava francês.

E quem não conhece o vovô vaidoso? Nunca o vi de barba mal feita. O cabelo nunca tem um fio fora do lugar. A roupa está sempre alinhada e elegante. Diz que gosta de se vestir bem para impressionar. E consegue, viu?!

Os anos se passaram e aos 90 anos o vovô ainda não tem nada a ver com os vovôs da ficção.  É certo que a barriga cresceu um pouquinho, os cabelos estão mais ralos e umas ruguinhas deram sinal de vida. Mas aos 90 anos, não consigo enxergar o vovô sentado numa cadeira, fazendo tricô. Ele continua elegante como um jovem e não para de trabalhar.

Pensando bem ele é um vovô de contos de fadas sim, mas de um conto de fadas moderno, não cansa de nos surpreender. Não cansou de lutar tanto pelos seus ideais, pela liberdade e pela democracia. Nem de ajudar a escrever a história do Amapá. Não se contentou em ter 6 filhos, 14 netos, plantar várias árvores e escrever um livro. Estão dizendo por aí que ele está escrevendo o segundo livro! E, para desespero da vovó, ele continua inventando o que fazer.

Nós queremos, vô, que você continue nos surpreendendo por mais 90 anos, no mínimo. E continue sendo o avô lindo que você é para nós. Além de um pai, tio, sogro, cunhado e amigo maravilhoso que sabemos que você é para nós.

Eu, Danilo, Luana, Flávio, Laís, Luciana, Giovanna, Amana, Isabella, João, Fabiana, Breno, Inácio e Marina te agradecemos pelo exemplo de vida que o senhor nos dá a cada dia e te desejamos um Feliz Aniversário ao lado de todas as pessoas que te amam.

* Discurso lido por mim e meu primo Danilo na festa de 90 anos do nosso avô Elfredo Félix Távora Gonsalves, ou só vovô Elfredo.