quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

E eu que sou homem, branco, heterossexual, ninguém se importa?

O Brasil anda do avesso mesmo.

Hoje, se um índio ou afrodescendente tirar a mesma nota que um branco no vestibular, os dois primeiros tem preferência para ingressar na universidade pública. E eu, branco (que sempre tive acesso à educação de qualidade e à cultura, nunca sofri preconceitos por conta da minha cor de pele, nem de minhas origem e sempre fui bem aceito em qualquer lugar que entro), sou excluído.

Os índios querem ter direito, por lei, a terras que ocuparam no passado. Isso quer dizer que 450 mil índios poderão ser donos de 15% do território nacional. E eu, branco (que não vi meu povo ser dizimado por outra civilização e nunca fui expulso das terras que ocupei por centenas de anos), fico só com 85% das terras.

Os quilombolas, descendentes dos negros que fugiram da escravidão brasileira, também estão abocanhando boa parte dessas terras, mais do que a Constituição de 88 destinou a eles. E eu, branco (que nunca fui escravizado, espancado e obrigado a trabalhar; que nunca tive minha liberdade tomada de mim; e nem precisei fugir para não morrer), fico sem mais terras.

Os homossexuais pedem a criminalização da homofobia e querem cartilhas que expliquem às nossas crianças sobre a homossexualidade. E eu, heterossexual (que nunca sofri preconceito pela minha orientação, nunca perdi um emprego por ser visto como diferente, tenho direito de casar e adotar filhos e não sofro violência na rua por estar abraçado com quem eu amo), sou esquecido.

As mulheres querem direito ao aborto, à reserva de vagas no mercado de trabalho e na política, salários maiores e direitos iguais. E eu, homem (que nunca apanhei do marido, nem recebi menos apenas por conta do meu gênero; que não sei o que é viver com medo de ser estuprado; que tenho total controle e direito sob o meu corpo), não tenho direito a licenças e regalias.

Os bandidos, assassinos e ladrões pedem direitos humanos, prisões melhores, respeito dos policiais e da população. E eu, cidadão de bem que nunca fiz nada de errado (e também nunca apanhei de um policial por ter roubado um prato de comida; nunca fui jogado como bicho dentro de uma cadeia que vai me tornar uma pessoa muito pior do que entrei; nunca fui amarrado a um poste sem qualquer explicação), não posso ser a favor da pena de morte e ainda tenho que conviver com a bandidagem nas ruas.

Os mais pobres querem bolsa isso, bolsa aquilo, casa, comida e emprego. E eu, classe média (que tenho acesso a boas oportunidades de vida, ao lazer, cultura, educação, saúde; que consegui estudar para ter um bom emprego; que tive pais que não precisavam me deixar e trabalhar 15 horas por dia para me sustentar), tenho que financiar tudo isso com os impostos que pago.

Francamente, está muito difícil ser branco, homem, heterossexual,  classe média e ter reputação ilibada nesse país.