quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Precisamos falar sobre Kevin e a maternidade

A primeira coisa que me chamou atenção no livro, quando eu ainda era vendedora na Livraria Cultura, foi sua capa. Uma mistura entre grotesco e supreendente, mostra um adolescente com a cabeça de um bicho.

Resolvi, então, em um dos raros momentos em que a livraria estava vazia, dar uma rápida lida na sinopse. Eva escreve cartas para seu marido, Franklin, revivendo várias fases da vida dos dois, antes e depois de Kevin, seu filho, nascer. Acontece que Eva nunca quis ser mãe de verdade e Kevin a rejeitou desde o momento em que nasceu. A relação entre os dois era extremamente complicada e Franklin, o pai, tentava de tudo para botar panos quentes na situação. Às vésperas de completar 16 anos, maioridade penal em alguns estados norte-americanos, Kevin matou sete de seus colegas de escola, uma professora e um servente.


Lionel Shriver, a autora, faz uma pesquisa apurada sobre chacinas praticadas em escolas por adolescente norte-americanos, citando vários casos e nomes. A descrição psicológica dos personagens é tão intensa e detalhada que procurei mais de uma vez no Google para ver se a história relamente não era real. O entrelaçamento da história com alguns momentos políticos dos EUA, e a crítica ácida à sociedade norte-americana, ajudam a dar um toque verídico ao caso.

O livro é tenso desde o início. Acostumados que somos a escutar falar da maternidade como um momento lindo, único e idealizado, ver uma mãe dizer que nunca sentiu nada pelo seu filho desde o momento que ele nasceu causa grande desconforto. Ao longo da história, esse desconforto transforma-se em uma espécie de terror pelas atitudes de Kevin, que começam bobas e aparentemente inocentes, até transformarem-se em uma chacina. Por fim, fica um sentimento de medo misturado com compaixão pela mãe desnaturada e seu filho ingrato.

O que mais me marcou na leitura é a realidade com que os fatos e os sentimentos dos personagens são contados. Eva sente-se mal por não amar seu filho, por querer desaparecer do mapa quando ele começava a chorar, por desejar que ele tivesse algum tipo de deficiência que despertasse alguma compaixão dentro dela, algum sentimento de mãe. Eva é só um retrato do que muitas mães devem passar sem ter coragem de contar para ninguém. Nós, mulheres, somos criadas para acreditar na maternidade como um momento mágico, mas ninguém nos ensina a enfrentar todas as privações a que seremos submetidas, todos os problemas e percalços no caminho. Ninguém nos conta que, muitas vezes, o amor não é instantâneo, que a conexão com nosso filho pode não surgir na hora e que, sim, talvez tenhamos que contar com a ajuda de um profissional para aprender a amá-lo. Pior, ninguém nos diz que isso é normal e não há nada de errado em pedir ajuda. Como se não bastasse o peso de ser responsável pela vida e o bem-estar de outro ser humano, colocam-nos o peso de amar incondicionalmente, aconteça o que acontecer, e nos condenam caso não sejamos capaz disso.

Sou suspeita para falar, acho que quero ser mãe desde os 10 anos de idade. No entanto, a tempos procuro ser mais realista com toda essa fantasia que criam em cima da maternidade. Deve ser maravilhoso, concordo, mas deve ser muito difícil também. E acho importante saber de todas as dificuldades, de todos os problemas que existem, até para podermos embarcar nessa jornada de forma mais consciente.


Terminei o livro triste, a história é muito pesada, e ao mesmo tempo aliviada pelas conclusões que Eva conseguiu chegar ao escrever suas cartas. Uma pena que essas conclusões tenham vindo tarde demais para não destruir sua vida. Felizmente, nunca é tarde para reconstruir.