sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Brasília e o funcionalismo público

Outro dia entrei em umas divagações no Facebook a respeito de Brasília e a cultura do funcionário público.

Minha cidade, como qualquer boa capital federal, é composta, sobretudo, por funcionários públicos (em sua maioria federais, claro). A cidade quase não tem grandes empresas, indústrias e, exceto alguns pólos como a cidade de Taguatinga, pouca vocação para o comércio. Isso resultou na formação de uma cultura do funcionalismo público que funciona quase como uma religião.

A minha geração cresceu ouvindo dos pais que bom mesmo é trabalhar para o governo. E olha que, pelo menos na minha família, a questão não era nem o salário nem as facilidades da vida de um servidor público, mas sim a maldita da estabilidade. Aliás, um conceito absurdo que vai contra qualquer noção de eficiência, eficácia e efetividade do Direito Administrativo.

A maldita 

Essa tal dessa estabilidade pressupõe que, pelo menos aqui no Brasil, um servidor público só seja demitido se Jesus voltar pra terra e ordenar. Sem exageros, é quase isso mesmo. É necessário que a pessoa faça muita, mas muita besteira para ser demitido e, mesmo assim, ainda vai passar por um processo administrativo que demora anos. Enquanto isso, continua não fazendo nada ou, até mesmo, não indo trabalhar, e seu salário entrando na conta todo mês.

E assim a máquina estatal brasileira está sendo construída. Só que, de uns anos pra cá, temos mais agravantes nisso tudo: os salários alarmantes, principalmente nos poderes Legislativo e Judiciário. Quem tem um amigo que mora em Brasília com certeza já sabe que o novo concurso do Senado tem vagas para Nível Superior com o salário de 24 mil reais e para Nível Médio com o salário de 13 mil reais. E todo mundo acha isso normal. NORMAL! Eu queria saber qual outro país oferece um salário absurdo desse pra ser técnico de gráfica...

Não discordo de que alguns cargos não só merecem receber muito, como devem ter estabilidade. Dependendo da função, da responsabilidade e do sigilo, a estabilidade em um cargo é essencial. Mas é a minoria dos cargos públicos que se aplicam nesse caso!

A cultura

E o resultado de todos esses absurdos é a formação de uma cidade sem vocação. Copiando um desabafo da minha prima Dany, "em Brasília, as pessoas estão em geral estudando pra concurso público e dando um 'corridão' no parque no fim de semana. (...) Uma cidade precisa de outras possibilidades pra pulsar!". Fato irônico para uma cidade formada por pioneiros e pessoas empreendedoras e de visão, vindas de todas as partes do país.

O fato é que, aqui, somos criados desde pequenos acreditando que só o funcionalismo público salva e que, se não tivermos a tal da estabilidade, vamos passar fome, não ter onde morar, perder o emprego e morar debaixo da ponte, ou coisa pior. E acaba que não conseguimos enxergar que grande parte das pessoas no Brasil e no mundo não são funcionários públicos, não tem estabilidade e vivem muito bem, obrigada. 

A maioria das pessoas não tem como objetivo de vida ganhar 20 mil reais aos 25 anos porque, muitas vezes, prefere ganhar pouco e correr atrás de um sonho, de um ideal, ou simplesmente sabe que sua carreira será muito mais valorizada se os degraus forem alcançados aos poucos. Também não quer comprar sua cobertura de 4 quartos, piscinas e etc. com 28 anos anos, porque quer conhecer o mundo e nâo pretende se prender a um lugar só a vida inteira. Só que em Brasília isso é improvável de acontecer, porque a cultura é estudar para entrar em um cargo que te pague 24 mil reais por mês, mesmo que você não suporte suas funções. "Pelo menos minha vida está garantida". E muitos trabalham 11 meses do ano para viver durante os 30 dias de férias.

Não estou aqui desdenhando o serviço público. Eu mesmo fiquei quase três anos nessa paranoia, achando que minha vida dependia de passar em um bom concurso. Quando percebi que não conseguia ter essa mentalidade "concurseira", que precisava ver algum propósito no que faço, independente de ser nobre ou não, desisti de tudo. Perdia muito tempo indo para a biblioteca, tentando estudar coisas que me torravam a paciência enquanto minha cabeça estava, na verdade, em outro lugar.

A minha crítica é para quem deixa de viver para ser estável e receber um salário astrônomico e irreal. Que acha tranquilo trabalhar numa coisa que não gosta, fazer um trabalho porco e receber bem, sem nem botar a mão na consciência e pensar que esse dinheiro que está recebendo vem do imposto pago pela grande parte dos empregados que trabalham pesado e não ganham nem 10% do que essas pessoas ganham.

 O futuro

Não é que não devemos pensar em nosso futuro e em nossa velhice. Mas essa geração brasiliense está dando importância demais para um futuro que talvez não exista. Não que eu ache que o mundo acabará agora em 2012, só acredito que aos 60 anos não poderemos nos aposentar porque a lei terá mudado para 70, 80 quem sabe. E aí? Teremos passado esses anos esperando para aproveitar o fim da nossa vida, só?

Como disse uma amiga esses dias, "a beleza das coisas está em mudar mesmo, e não serem para sempre". Então por que tanta preocupação com a estabilidade? Por que não assumir que a instabilidade faz parte do processo, da vida mesmo? Por que abrir mãos de sonhos, ideais, vontades para viver em um mundo irreal e, muitas vezes, insatisfatório?

Desculpem-me os amigos funcionários públicos e, mais ainda, aqueles que trabalham para o governo e são apaixonados por isso. Mas me entristece ver Brasília se transformar naquilo que o Brasil sempre dnos acusou e nós nunca admitíamos: uma cidade que vive do governo, e não para o governo.