quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Eu sou vadia

Muita gente vai torcer o nariz quando ler esse título. Essas mesmas pessoas não estranhariam se eu fosse homem e fizesse um texto chamado "Sim, eu sou pegador". No máximo levariam na brincadeira. Elas também acreditam fielmente que não existe machismo e que o feminismo é uma grande bobagem, mas adoram afirmar que a mulher deve ser "uma santa na sociedade e uma puta na cama".

Eu não me declaro feminista pelo simples fato de ter muitas amigas feministas realmente engajadas, que estudam e vão para a rua lutar pelos nossos direitos. Elas sim são feministas, estão colocando a cara a tapa para um bem que atingirá todas nós. Mas posso me incluir na categoria de altamente simpatizante com as lutas e questões feministas.

E, por isso, me contorço com o tanto de bobagem que escuto por aí. "Sou contra machismo e feminismo, defendo o igualitarismo", escutei esses dias. A afirmação já chega tomando como certo que o feminismo quer que as mulheres tenham mais direitos que os homens. O que nós queremos é receber o mesmo salário que os homens quando exercermos os mesmos cargos; andar na rua de shorts curtos com a mesmo liberdade que os homens andam sem camisa; ser presidentes, Prêmio Nobel, Oscar, tetracampeãs mundiais em qualquer esporte, e não só a garota bumbum ou a Miss Brasil; ter o direito sobre o nosso corpo, escolher se vamos ou não levar uma gravidez adiante, como queremos nosso parto, com quem nos deitamos ou deixamos de nos deitar.

Nós também queremos que os homens tenham direito de fraquejar sem julgamentos. Que eles possam escolher cuidar da casa e dos filhos se quiserem. Que não se sintam na obrigação de serem os provedores da família e ganharem mais do que suas mulheres. Que eles possam brochar, chorar, expor suas fraquezas. Que não sejam obrigados a perder a virgindade com 12 anos em algum prostíbulo. Que não tenham que provar sua masculinidade indo pra cama cada dia com uma mulher diferente, ou arrumando briga na rua ou, até mesmo, batendo em suas companheiras, mães ou irmãs. E se isso não é brigar por igualdade de gênero, não sei o que seria.

A questão principal está na grande diferença entre o machismo e o feminismo: enquanto o primeiro oprime, o segundo liberta. Só que muitas pessoas ainda ignoram isso. Outro dia fiz um post no Facebook reclamando do quanto é horrível escutar cantadas todas as vezes que resolvo deixar meu carro em casa e andar a pé. Eu sabia que teria apoio e comentários positivos da maior parte das mulheres da minha rede, mas não esperava ter que lidar com comentários masculinos do tipo: "quem mandou ser bonita?". Isso não é um elogio, é só uma comprovação de que o machismo está grudado na nossa cultura a ponto de alguns não perceberem que esse comportamento só reforça a minha reclamação. A forma como essas cantadas geralmente são proferidas é quase sempre lasciva, assustadora e extremamente opressora. E nós sabemos muito bem como é horrível sentir um frio na espinha, abaixar a cabeça e aumentar o passo para sair o mais rápido possível dali.


Mas ainda há aqueles que usam o argumento de que isso faz parte da natureza masculina e a mulher deve se preservar. Não, isso não faz parte da natureza masculina. Isso é construído na nossa sociedade: conforme os meninos crescem, vão sendo ensinados a não controlar seus instintos, a mexer com as mulheres na rua, a achar que têm direito sobre o corpo da mulher. E nós ficamos vulneráveis, a mercê desse comportamento ameaçador.

Quando falamos de questões feministas, precisamos ter em mente as marcas históricas que nós, mulheres, sofremos: assédio sexual, moral, psicológico; abusos, estupros e outros tipos de violência; restrições, proibições e julgamentos; falta de direitos e de liberdade. A meu ver, é simplesmente impossível ignorar tudo, desvalorizar o feminismo e fingir que não vivemos em uma sociedade extremamente machista.

A idade média acabou, está na hora de parar de achar que feministas são bruxas, comem criancinhas, querem destruir os homens. Queremos um mundo igualitário para homens e mulheres. Que possamos ser santas na sociedade e putas na cama. Ou putas na sociedade e santas na cama. Que possamos ser vadias, mães de família, executivas de sucesso, donas de casa, solteiras, casadas, enroladas, lésbicas, bissexuais, transexuais, heterossexuais, brancas, negras, amarelas, gordas, magras, altas, baixas, vaidosas, desleixadas ou qualquer coisas que quisermos ser, na hora que acharmos melhor. É a nossa vida, são os nossos direitos.

Para quem quiser saber um pouco mais e não correr o risco de sair falando bobagens por aí, indico dois links:

Feminismo para homens, um curso rápido.
FAQ Feminista.