quarta-feira, 21 de maio de 2014

O mito da felicidade

Tento descobrir quem inventou a tal fórmula da felicidade que andam espalhando por aí. O tripé é simples: um bom emprego, um marido e filhos, tudo antes dos 35, claro.

Daí derivam uma série de mandamentos irrefutáveis. Dentre eles a ideia de que até os 20 e poucos anos a gente pode se divertir, depois chega a idade de constituir família e tal, o melhor é mostrarmos que somos mulheres de família, "pra casar". E não importa o quão intensa e agitada tenha sido sua juventude, ficou tudo no passado. Se você não aproveitou a vida até aí, timing errado, pague o preço.

Esse mandamento está fortemente atrelado a um outro, que diz que toda mulher solteira perto dos 30 é, pobrezinha, uma coitada. Vai ficar para tia, vai criar gatos, será que virou lésbica? Afinal, como uma mulher pode ser feliz sem a chancela masculina? Como ela pode viver bem sozinha, cadê um homem para lhe dar sentido a vida?

Desses dois mandamentos, surge um terceiro, interessantíssimo: a despeito de toda revolução sexual e da liberdade que alcançamos para poder casar por amor, descasar quando quisermos e até nunca casarmos, o tal do casamento continua sendo um objetivo a ser perseguido (por mulheres perto dos 30, principalmente) e não a consequência de um relacionamento entre duas pessoas profundamente conectadas. O melhor comentário que ouvi esses dias, vindo de uma amiga, foi: em pleno século 21 as pessoas continuam se casando pelos mesmos motivos que faziam em 1500 - para ter uma testemunha na vida, para não ficar só, para ter filhos, para ter status, porque as pessoas cobram. No fim, a gente conta nos dedos quantas pessoas casam porque realmente sentem que estão em um relacionamento que faz sentido.

Me incomoda profundamente ver mulheres lindas, independentes, fortes, reproduzindo a fórmula mágica: "Não tenho mais idade para ser solteira.", "Eu deveria estar constituindo uma família" e, a pior de todas, "Queria estar casando nessa idade". Como se o casamento fosse a linha de chegada, não uma parte do percurso de duas pessoas que se amam. 

Relacionamento exige muito mais do que vontade e amor. Exige maturidade, paciência, respeito às suas vontades e às vontades do outro, zelo, autoconfiança, prazer e uma conexão profunda entre duas pessoas, que ultrapassa a atração física. Mesmo com tudo isso, uma hora as coisas podem mudar de rumo e a conexão se perder. Não faz muito sentindo, então, colocar o peso do "para sempre" em cima de duas pessoas que irão mudar ao longo dos anos, como qualquer ser humano. 

Assim como não faz sentido acreditar que a sua companhia não te basta para te fazer feliz.