quarta-feira, 7 de maio de 2014

A ostra

Entrou no carro com a imagem fixa de uma ostra na cabeça. Esqueceu-se de falar sobre isso com a analista. Ou talvez não tenha dito de propósito, aquelas manhãs ainda eram um exercício sofrido na sua rotina. Abrir-se para o desconhecido, expôr suas fraquezas, não sabia que seria tão difícil.

A conversa de hoje havia passado pela sua mãe, pelo fim do seu namoro e pelas mudanças que vem experimentando em sua vida, os tópicos principais se repetiam desde a primeira sessão. As brigas, o abandono, a incompreensão, o mundo desconhecido onde ela foi obrigada a caminhar. E essa sua indiferença com as pessoas que ela não reconhecia.

Me disseram uma vez que o danado do amor pode ser fatal / dor sem ter remédio pra curar, tocava na rádio, sempre nas horas mais dolorosas. Daí lembrou-se de uma frase que rondava constantemente seus pensamentos: "O que mais me encanta é que você sabe cuidar dos seus". Por isso ele acreditou, por quase quatro anos, que ela era a mulher da vida dele. Mas ela não sabia mais quem era essa mulher. Não sabia mais quem era aquela que cuidava, se preocupava, se importava. Estava difícil cuidar até mesmo dela. Não encontrava mais a mulher que se entregava de todo coração, que abraçava com força e não media esforços para ajudar quem ama.

Os amigos faziam piadas sobre o seu coração de pedra: sugeriam, constantemente, uma ida ao Mágico de Oz. Quem diria, uma ex-manteiga derretida, chorava até com propaganda de margarina, começando a sufocar com tanto choro engasgado. Não se comovia, não se emocionava, chegava a mudar de calçada quando aparecia uma flor e dava risada do grande amor (mentira!).

Criou uma armadura em volta de si. Protegia-se. Aderiu à regra do terceiro encontro: era o suficiente para que ela desanimasse e não quisesse mais. O primeiro era ótimo, o segundo ok, o terceiro nhé, era aquela hora da chuva de poréns. "Ê ê, ela não é de nada, oiá, essa cara amarrada é só um jeito de viver na pior", dizia a voz bonita.

E enquanto dirigia para casa, pensava na capacidade que sua mente tinha de destruir toda e qualquer possibilidade de conquista do seu coração. Desenvolveu uma grande habilidade auto-sabotagem, capaz de cercar esses invasores desconhecidos de defeitos (muitos dos quais puramente inventados) e destruí-los por completo.

Chegou em casa, finalmente. Só queria descansar um pouco a cabeça, que fervilhava com todo tipo de angústia. Ligou a TV em um daqueles canais que ela nunca prestava atenção, mas faziam companhia quando a solidão parecia insuportável: "A ostra é um molusco com o corpo mole, protegido dentro de uma concha altamente calcificada. Quando um parasita invade seu corpo, ela libera uma substância chamada madrepérola, que se cristaliza sobre o invasor. Depois de cerca de três anos esse material vira uma pérola.""

Percebeu então que, pelas suas contas, faltava ainda um ano e meio para que seu coração abrisse novamente.