sábado, 24 de maio de 2014

O gosto

- Moça, você tá bem?
- Sim...
- Você está chorando...
- Não se preocupe, são lágrimas de alívio.
- Como assim, lágrimas de alívio? - uma novidade para um menino de 9 anos.
- Sabe o que é? Ás vezes a vida machuca tanto a gente que nosso coração vai apertando, apertando, até ficar duro igual a uma pedra. Aí, parece que a gente nunca mais vai conseguir sentir nada: nem muita alegria, nem muita tristeza.
- E não tem médico pra isso?
- Tem não.
- E remédio?
- Só o tempo.
- Mas tempo não compra.
- Não, tempo a gente espera.
- É por isso que você tá chorando? Porque o tempo tá demorando?
- Não, eu tô chorando porque o tempo passou, a pedra amoleceu e eu percebi que tinha tanta mágoa apertada dentro do meu coração que precisei dessas lágrimas para colocar tudo pra fora.
- Hummm, quer dizer que sua mágoa virou água?
- Virou lágrima.
- Então a mágoa é salgada?
- Pode ser amarga também.
- Acho que não gosto de mágoa, só gosto de doce.
- Eu também.
- Então porque engoliu mágoa?
- Sabe quando sua mãe diz que você tem que comer salada para crescer saudável e você é obrigado a comer mesmo sem gostar? Com a mágoa é igual. Aliás, com a mágoa, com a raiva, com a tristeza. Ninguém gosta, mas se a gente não provar, não crescemos fortes.
- Entendi. Acho que sou pequeno pra ser forte ainda... Quer um pouco de alegria? - disse, oferecendo-me seu chocolate.