quarta-feira, 14 de maio de 2014

Espelho

Por que o despertador tocava sempre tão cedo? Ainda tonta, levantou-se para cumprir a mesma rotina de sempre e foi escovar os dentes. Desde quando o espelho estava quebrado? Aliás, quando é que ele não esteve? Não conseguia mais lembrar a última vez que viu sua imagem inteira pela manhã. Todos os dias, a visão de si era fragmentada, em pedaços.

Fixou-se naquela rachadura a procura de uma brecha, um pedaço de vidro que a mostrasse como ela era. Já havia se sentido inteira, tinha certeza disso. Houve uma época em sua vida que teve certeza de tudo: de quem ela era, do que queria e como seria seu futuro. Até que se partiu em mil pedaços. Por que estava tão difícil resgatar essa memória?

Passava os olhos naquelas linhas que cortavam o espelho de uma ponta a outra e tentava entender quem aparecia naquele caleidoscópio. Quem era aquela mulher paradoxal e tão complexa que não conseguia se enxergar completamente?

Lembrou-se de como, ainda adolescente, era romântica e queria viver um conto de fadas. Hoje, tão durona e cheia de si, não mostrava para ninguém o coração mole e tão maltratado que carrega. Comprava flores para a casa, tentando trazer um pouco mais de cor e leveza para esse mundo tão racional que ela escolheu viver, mas não conseguia dar abraços calorosos como já soube fazer tão bem.

Era feminista sim, não tinha medo de falar disso. Acreditava que mulher tem que pagar a conta e homem ajudar na cozinha, mas, ah, era cheia de inseguranças machistas, principalmente em relação ao seu corpo.

Gostava muito de ser livre, gostava da sua independência. No entanto, sentia falta, nem que fosse uma vez por mês, naquele período que ela chorava por um dia inteiro enquanto acabava com um litro de sorvete, de ter alguém para se enfiar debaixo do cobertor e ver filme abraçada.

Também queria ser mãe, não agora, mas queria, nem que fosse solteira, ainda que não desejasse que seu filho crescesse sem pai como ela.  Seu maior medo na vida era de não poder gerar um filho, maior até do que sua fobia por cobra. Apesar disso, defendia o aborto, mesmo sabendo que jamais teria coragem de fazer um. Esperava que um dia toda mulher pudesse ser dona de seu próprio corpo.

Adorava namorar, teve relacionamentos muito longos e muito próximos um do outro. Mas nunca teve a menor paciência com joguinhos e artimanhas do amor. Queria mesmo é que todo mundo fosse sincero e dissesse logo o que sente. Não sabia mentir para impressionar, não conseguia dizer o que não sentia. Também não dizia o que sentia, embora seu coração fosse tão perto da boca. Um dia vai engasgar com todas as palavras que empurra garganta abaixo.

Falava em poliamor, relações abertas, achava essa ideia de monogamia bem maluca, no entanto, nunca traiu quem amou e achava que jamais teria maturidade para uma experiência dessas.

Acreditava muito nas pessoas. Tentava sempre ver o lado bom de todo mundo e custava a crer que elas mentiam, enganavam, traíam. Quando isso acontecia, sua tendência era quase sempre de colocar peso nas suas próprias costas, carregando uma carga de culpa que não era dela. Estava exausta dessa autopenitência.

Apesar de não conseguir resolver nem uma parcela mínima de seus problemas internos, possuía um autoconhecimento invejável.  Era capaz de enumerar todos os seus defeitos e qualidades, suas causas e consequências, sem hesitar.

Era assim, esses pedaços dela mesmo que enxergava, mas não conseguia juntá-los em uma só imagem. Sempre achava que faltavam partes, algumas não se encaixavam direito. E, todas as manhãs, sabia que precisava trocar aquele espelho. Mas não fazia.