segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Quintana

A Rua dos Cataventos

Da primeira vez que me assassinaram,
perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não te mais nada.
Arde um todo de vela amarelada,
Como o único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

QUINTANA, Mário. A Rua dos Cataventos. Rio de Janeiro, Globo, 1940.

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