terça-feira, 14 de julho de 2015

Miopia




Bastaram cinco minutos de conversa para eu entender toda a sua angústia. Você namoraria com ele?, te perguntei. Sua resposta foi um rápido não. Mesmo assim passou boa parte do nosso jantar falando sobre o quanto a indiferença dele te incomodava. O quanto você queria que, dessa vez, as coisas funcionassem.

Eu, de minha parte, te observava. Sua boca e cada palavra que saia dela, seus olhos e cada vez que eles se cruzaram com os meus, seu rosto e cada expressão que você fazia (meu deus, como é expressiva!). Tentava escutar com atenção o que dizia, mas a verdade é que eu não tinha muito interesse.

Por favor, não me entenda mal. Tenho interesse em absolutamente tudo o que vem de você, menos em te ouvir falar de outro. Todas as vezes que você pronunciava o nome dele, mentalmente eu trocava pelo meu. Queria imaginar que você perdia suas noites por mim e passava horas dirigindo pela cidade pensando como seria nós dois juntos, como você gostava de fazer quando se apaixonava.

Mas meu recurso não funcionava muito bem pelo simples fato de que eu jamais seria indiferente a você. Eu jamais te deixaria sem resposta. Eu jamais recusaria um convite seu, fosse para um motel ou para o recital de ballet da sua prima de 4 anos. Eu jamais te deixaria sem mim.

Meu olhar devia estar muito perdido, porque você interrompeu sua história para reclamar que eu não estava prestando atenção. Sim, eu prestei. E também prestei atenção em todos os seus gestos, no seu cheiro, no som da sua voz. Prestei atenção no jeito que você mexe no cabelo quando está agitada e na forma como fala rápido quando fica ansiosa. Também prestei atenção nas suas pernas inquietas e nas suas mãos ... Prestei atenção nas batidas do seu coração e no rosado dos seus lábios. E o que eu acho disso tudo? Eu acho que você deveria deixar pra lá quem não te enxerga e prestar atenção em quem quer te fazer feliz.