terça-feira, 26 de novembro de 2013

Desses sentimentos que a vida transforma pra não levar embora


Foto: https://www.flickr.com/photos/mk_is_here

Ele sempre dizia que amizade entre homem e mulher não existia sem algum interesse. Ela achava bobagem, ciúmes bobos dos seus amigos. Demorou mais de dez anos para aprender que ele tinha razão, mas que ela também não estava errada em acreditar nesse tipo de amizade.

Naquela época, viviam um desses amores adolescentes avassaladores. Mãos dadas na escola, beijo roubado atrás do muro, buquê de flores na sala de aula, poemas e cartas de amor. Dessas paixões que deixam sem ar, fazem a perna tremer e a barriga coçar de tanta borboleta.

Como todo fogo que acende rápido, poderia ter acabado rápido. Mas durou uns bons anos, nos quais eles riram juntos, choraram juntos, brigaram juntos, aprenderam juntos, viveram juntos uma das fases mais importantes de suas vidas. E conseguiram uma cumplicidade tão grande que muitos achavam que eram irmãos e se assustavam quando os viam se beijando.

Enfim, uma hora os caminhos tomaram direções diferentes. Era bom estar junto, mas não era mais suficiente. Talvez, por isso, o carinho que cultivaram ao longo dos anos ficou guardado em algum lugar seguro. Então, por mais que a vida os levasse para outros lugares, outros amores e outras experiëncias, estavam sempre por perto, mesmo que fosse à distância de um toque de telefone. Podiam ficar semanas, meses e até anos sem se ver, mas uma hora ou outra se encontravam, colocavam a conversa em dia, riam e se ofendiam mutuamente como dois bons e velhos amigos.

Um dia, saindo do bar com amigos em comum, ela escutou de uma amiga: "vocês tem tanta conexão, que pena que não deram certo, que pena que todo aquele amor acabou". Ela parou, refletiu e concluiu que, na verdade, o amor não acabou, há quinze anos aquele amor existe, só que de uma forma diferente: mais estável do que a paixão adolescente e mais tolerante do que o amor entre um casal de namorados. Ele se transformou em uma amizade sincera, franca e transparente. Em um carinho enorme, que sobrevive ao tempo e às circunstâncias. Em um cuidado mútuo que se percebe em cada troca de palavras, brincadeiras e convites para uma cerveja.

E dentre todos os amores desfeitos e tantas decepções vividas que ultimamente a deixavam tão desanimada, ela sentiu uma alegria gostosa ao entender que esse foi o primeiro amor de verdade da sua vida e o único que permaneceu. Com ela, esse sentimento ficará guardado em um lugar muito especial para que não se perca também, para que não vire apenas mais uma lembrança em sua vida, mas continue presente, por tempo indefinido.

Foi aí que ela viu que a própria história deles provou o quanto ele estava certo e o quanto ele estava errado em relação a amizade entre homem e mulher. Realmente, essa amizade não existe sem alguma intenção. Mas quando essa intenção se esgota, a única coisa que resta é o carinho, a lealdade e o cuidado entre dois bons amigos que se gostam de graça, pelas risadas que dão juntos, pelos bullyings por mensagem e até pelas brigas e puxões de orelha muitas vezes necessários.