segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Atuando

Nunca tive coragem de confessar que odiei Ana Karenina e não via a menor graça na literatura russa que você adora. Tentava me mostrar interessada, mas tudo me entediava, do mesmo jeito que eu ficava quando você falava de carros ou contava pela décima quinta vez uma história de sucesso da sua vida (eram 4 ou 5 e eu não aguentava mais nenhuma delas).

Eu não me identificava com aquilo. Eu gosto de literatura latina. Eu amo Carnaval. Eu queria passar o dia na praia, torrando no sol. Eu queria ter assistido um musical na Broadway. Defendo o feminismo, os homossexuais, os negros e as outras minorias; sou a favor das manifestações, das greves, do aborto, choro com notícia de jornal; a sua opinião acerca desses assuntos me chocava. Detesto carro. Não suportava mais as mesmas histórias, as mesmas angústias, as mesmas crises, as mesmas dúvidas.

Eu atuava para mim, tentando me convencer de que tínhamos algo em comum.


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

engoli a felicidade

já diria qualquer poeta
dos mais eruditos aos de beira de estrada
que felicidade dura pouco
a minha bateu aqui na porta
eu agarrei
engoli e falei:
de dentro de mim você não sai mais, sua danada!
quero ver essa bicha escapar!

domingo, 19 de janeiro de 2014

Pra declarar...

Levarei em mim o amor da minha vida e a cidade do meu coração. #prasempre


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Vem, ano, vem

Na contramão da minha decisão de criar codornas, ao invés de expectativas, me rendi à lista de promessas para 2014.


  • Ter mais paciência com as pessoas.
  • Abrir meu coração.
  • Aproveitar o verão, essa invenção maravilhosa.
  • Ficar dourada de sol e de felicidade.
  • Sorrir mais.
  • Ser mais gentil.
  • Me apropriar desse poder de guiar minha própria vida do jeito que eu quero.
  • Ser mais bem humorada.
  • Usar menos celular e mais papel, máquina fotográfica, abraços e contato físico.
  • Mandar aqueles quilos todos pro espaço, sem passagem de volta.
  • Dar uma voadora na TPM.
  • Ver o lado bom da vida.
  • Sentir mais saudade.
  • Sentir menos saudade.
  • Fazer passeios fotográficos.
  • Ser feliz onde eu estiver e com quem eu estiver.
  • Me aproveitar de toda essa vontade de viver que descobri dentro de mim.
  • Ficar perto só de quem me faz bem.
  • Fazer novos amigos.
  • Apertar muito as pessoas que eu amo.
  • Dançar, Correr, Viajar, Ler, Escrever, Beijar, Perdoar, Amar.
  • Sambar na cara de qualquer guru ou previsão astrológica que venha dizer que esse será um ano ruim.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O amor devora

Os Três Mal-Amados

João Cabral de Melo Neto

Joaquim:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. 
O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

As falas do personagem Joaquim foram extraídas da poesia "Os Três Mal-Amados", constante do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas",Editora Nova Aguilar S.A. - Rio de Janeiro, 1994, pág.59.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

O que ela quer da gente é coragem

Foto: https://www.flickr.com/photos/jridgewayphotos

Ainda acho engraçado quando amigos dizem que sou corajosa. Não me acho nem um pouco. Na verdade, diria que sou uma das pessoas menos corajosas que conheço: estudei a vida inteira na mesma escola, morei a vida inteira na mesma casa, tive quase sempre os mesmos amigos, enfim, nunca mudei muito, nem me esforcei pra isso. Além disso, posso citar aqui pelo menos umas 10 pessoas próximas muito mais corajosas: desde a amiga que larga tudo pra passar 1 ano na Ásia, até a que se joga no mundo (mais precisamente na Europa) toda vez que seu coração manda. E eu continuo na minha vidinha classe média brasiliense. Pelo menos consegui fugir do fluxo passar num concurso - casar - ter filhos, o que já pode ser considerado um grande passo de coragem pra quem mora aqui.

Meu único ato de coragem nos últimos tempos foi aprender a dizer mais "sim"  para a vida, antes de reagir com aquele "não" iminente. E foi dizendo sim que eu descobri que a vida é muito mais simples do que eu imaginava. Descobri que viajar sozinha para um lugar desconhecido com língua desconhecida não é nenhum bicho de sete cabeças; que morar sozinha tem um monte de contratempos, mas uma liberdade incomparável; que por mais que nosso coração esteja em um lugar, é bom a gente se jogar em novas aventuras, a vida sem frio na barriga não tem graça; que sorrir, conversar e se permitir conhecer pessoas que não tem absolutamente nada a ver com a gente é extremamente gratificante e enriquecedor; que experimentar uma comida nova é bom pra caramba; que ir a lugares estranhos e diferentes pode ser muito divertido. Mas talvez o que eu melhor tenha aprendido é que dizer sim para as nossas vontades é a melhor coisa que existe. Parar de viver e de querer viver a vida do outro é mais do que coragem, é crescimento, maturidade.

Eu resolvi, então, dizer sim para a minha vida e assumir as consequências das minhas escolhas. Parar de pesar demais os contras e apostar nos prós. E, olha só, descobri que na maioria das vezes são os prós que contam mesmo. Mas quando os contras pesam mais, a gente muda de novo, não tem nada de errado nisso. Ninguém fica me apontando na rua quando eu mudo de ideia, nem quando eu desisto de alguma coisa. Por outro lado, quem gosta de mim fica extremamente feliz quando vê meus projetos dando certo, e isso é muito gratificante.

E é isso. 2013 termina de viagem feita, alma lavada, casa nova, emprego novo, 18 km de corrida completados e a vida muito melhor do que eu podia imaginar. Com muito mais segurança de quem eu sou e do que eu quero pra mim, com muito mais vontade de escrever o roteiro da minha vida, com a certeza de que posso corrigi-lo ao longo do caminho, quando eu bem entender.


Coragem? Acho que não, só resolvi tomar as rédeas da minha vida. Afinal, ela é minha, não preciso que ninguém a conduza.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

You never know how strong you are

Só temos noção do tamanho da nossa força quando ser forte é a única opção que nos resta.

E você está aprendendo isso da maneira mais dura e sofrida possível. Queria eu viver tudo no seu lugar. Não me importaria em passar por tudo de novo. I've been there before.

Mas o que eu vi nos seus olhos não foi a menina que enxergava até então, foi a mulher linda, forte, poderosa, que eu sempre acreditei que você seria. Você cresceu.

Não é apoio mais que tenho para te oferecer, mas carinho, alento, colo, sorvete, risadas e todo o meu amor. O resto você já tem. Você já tem força, sabedoria, maturidade, amor próprio e muita coragem. E eu, muito orgulho.

<3



terça-feira, 26 de novembro de 2013

Desses sentimentos que a vida transforma pra não levar embora


Foto: https://www.flickr.com/photos/mk_is_here

Ele sempre dizia que amizade entre homem e mulher não existia sem algum interesse. Ela achava bobagem, ciúmes bobos dos seus amigos. Demorou mais de dez anos para aprender que ele tinha razão, mas que ela também não estava errada em acreditar nesse tipo de amizade.

Naquela época, viviam um desses amores adolescentes avassaladores. Mãos dadas na escola, beijo roubado atrás do muro, buquê de flores na sala de aula, poemas e cartas de amor. Dessas paixões que deixam sem ar, fazem a perna tremer e a barriga coçar de tanta borboleta.

Como todo fogo que acende rápido, poderia ter acabado rápido. Mas durou uns bons anos, nos quais eles riram juntos, choraram juntos, brigaram juntos, aprenderam juntos, viveram juntos uma das fases mais importantes de suas vidas. E conseguiram uma cumplicidade tão grande que muitos achavam que eram irmãos e se assustavam quando os viam se beijando.

Enfim, uma hora os caminhos tomaram direções diferentes. Era bom estar junto, mas não era mais suficiente. Talvez, por isso, o carinho que cultivaram ao longo dos anos ficou guardado em algum lugar seguro. Então, por mais que a vida os levasse para outros lugares, outros amores e outras experiëncias, estavam sempre por perto, mesmo que fosse à distância de um toque de telefone. Podiam ficar semanas, meses e até anos sem se ver, mas uma hora ou outra se encontravam, colocavam a conversa em dia, riam e se ofendiam mutuamente como dois bons e velhos amigos.

Um dia, saindo do bar com amigos em comum, ela escutou de uma amiga: "vocês tem tanta conexão, que pena que não deram certo, que pena que todo aquele amor acabou". Ela parou, refletiu e concluiu que, na verdade, o amor não acabou, há quinze anos aquele amor existe, só que de uma forma diferente: mais estável do que a paixão adolescente e mais tolerante do que o amor entre um casal de namorados. Ele se transformou em uma amizade sincera, franca e transparente. Em um carinho enorme, que sobrevive ao tempo e às circunstâncias. Em um cuidado mútuo que se percebe em cada troca de palavras, brincadeiras e convites para uma cerveja.

E dentre todos os amores desfeitos e tantas decepções vividas que ultimamente a deixavam tão desanimada, ela sentiu uma alegria gostosa ao entender que esse foi o primeiro amor de verdade da sua vida e o único que permaneceu. Com ela, esse sentimento ficará guardado em um lugar muito especial para que não se perca também, para que não vire apenas mais uma lembrança em sua vida, mas continue presente, por tempo indefinido.

Foi aí que ela viu que a própria história deles provou o quanto ele estava certo e o quanto ele estava errado em relação a amizade entre homem e mulher. Realmente, essa amizade não existe sem alguma intenção. Mas quando essa intenção se esgota, a única coisa que resta é o carinho, a lealdade e o cuidado entre dois bons amigos que se gostam de graça, pelas risadas que dão juntos, pelos bullyings por mensagem e até pelas brigas e puxões de orelha muitas vezes necessários.